Em novembro de 2005, quando o Metallica se reuniu em seu estúdio doméstico e sala de ensaio em San Rafael, Califórnia, os quatro veteranos do heavy metal não sabiam que estavam começando a trabalhar naquele que o baterista Lars Ulrich chama de "o disco mais livre de estresse que o Metallica já fez", o novo álbum da banda, "Death Magnetic".
Este não foi o caso seis anos antes, quando o grupo indicado para o Museu da Fama do Rock estava no mesmo lugar gravando aquele que se tornaria "St. Anger" (2003). Como documentado no filme emocionalmente bruto "Metallica: Some Kind of Monster" (2004), aquelas sessões se desintegraram em meio a brigas internas, árdua terapia de grupo e à decisão abrupta do cantor/guitarrista James Hetfield de largar tudo e se internar em uma clínica de reabilitação.
Mas as coisas foram diferentes em 2005, quando o Metallica se reuniu para ensaiar para abrir alguns concertos para os Rolling Stones.
"Havia realmente um clima relaxado", lembra Ulrich, 44 anos. "Não havia equipe de filmagem, não havia psiquiatra, não havia produtor. Eram apenas quatro sujeitos em uma banda de rock e seus instrumentos. Hetfield venceu seus demônios e nós sobrevivemos ao processo de 'St. Anger' e tudo que veio após ele. Nós sabíamos que tínhamos chegado no fundo e que então as coisas só podiam melhorar..."
"Nós meio que paramos por um momento ali e percebemos quão afortunados éramos por termos o que tínhamos e ainda funcionarmos", diz o baterista de origem dinamarquesa, "de ainda termos uns aos outros e podermos estar no mesmo espaço juntos".
"E acho que apenas sorrimos e começamos a tocar, e partimos daí."
Mas apesar das coisas estarem mais gentis e leves, certamente mais felizes, dentro do Metallica, o fato de forma alguma amenizou a música. "Death Magnetic", o nono álbum de estúdio nos 27 anos de carreira do grupo, é o tipo de som agressivo que fez a reputação do Metallica, cheio de ataques dinâmicos incendiários, volume trovejante e canções longas -apenas duas têm menos de sete minutos- que dão voltas com ferocidade precisa.
No meio de tudo isso, Hetfield rosna "O que não te mata te deixa mais forte", e a recepção a "Death Magnetic" prova que o Metallica, após vender mais de 90 milhões de álbuns em todo o mundo, permanece uma grande força no mercado. O álbum passou três semanas no topo da parada Billboard 200, tornando o Metallica a primeira banda a conseguir cinco estréias consecutivas em primeiro lugar, além de ocupar o topo das paradas em 31 outros países. O álbum se tornou um vendedor multimilionário em sua primeira semana, um feito que pegou até mesmo os membros da banda desprevenidos.
"Eu me sinto, tipo, um pouco estupefato, agradecido", diz Ulrich com uma risada. "É muito bacana, porque parece ser algo universal desta vez. Está ocorrendo em todo o mundo e todos estão ligados nele de muitas formas. A sensação é de que, entre os fãs, imprensa, meus pares, todo mundo (...) A sensação é de que é uma coisa enormemente positiva."
Outro teste importante: o que Ulrich escuta quando leva seus filhos, com 10 e 7 anos, para a escola.
"Todos os garotos que, nos últimos dois anos sabiam que eu fazia algo ligado a rock and roll, agora dizem: 'Cara, 'Death Magnetic' é demais! -todos esses garotos da quinta série e semelhantes que nunca antes realmente tiveram chance de estarem muito expostos ao Metallica. É muito maluco levar meus filhos para a escola e receber todo esse amor."
Ao mesmo tempo, Ulrich e seus companheiros de banda -o co-fundador Hetfield e os que chegaram depois, o guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo, que ingressaram na banda respectivamente em 1983 e em 2003- rejeitam a idéia de que "Death Magnetic" é algum tipo de volta, de retorno à forma, após a suposta decepção de "St. Anger".
Ulrich reconhece que o álbum anterior foi feito durante um momento difícil para a banda, que também suportou o ressentimento residual dos fãs em torno de sua posição veemente contra a troca de arquivos de música pela Internet, a saída acrimoniosa do baixista Jason Newstead e a descrição inconveniente por "Some Kind of Monster" do poderoso Metallica em uma disfunção chorosa, estragada por terapia.
Todavia, o baterista sente que o Metallica levou uma surra fora de proporção.
"Eu me lembro, quando 'St. Anger' saiu, que recebeu quatro estrelas na 'Rolling Stone' e foi muito bem recebido por muita gente, especialmente pela imprensa principal. Foi tipo, 'Viva! O Metallica voltou a ser agressivo, barulhento e... sujo de novo'. E então, cinco anos depois, 'St. Anger' é tratado com desdém."
"Parece coisa de folclore ou de como funciona a percepção. É, tipo, como este exemplo: 'É 2008, o Metallica está de volta tocando de novo como nos anos 80, de volta às raízes, e "St.Anger" é uma memória distante'."
"Ok, eu entendo a necessidade desse tipo de citação. Mas ao fazer parte do Metallica por 27 anos, parte do passeio envolve estes altos e baixos e dinâmicas. Agora as pessoas gostam um pouco mais de você, agora gostam um pouco menos, agora as pessoas se queixam disso, agora se empolgam com aquilo (...) eu entendo. Mas na verdade nós não fomos a lugar algum. Para nós é apenas uma jornada contínua."
Dito isso, Ulrich reconhece que o Metallica sentiu uma certa pressão pra acertar em "Death Magnetic".
"Nós sabíamos que precisávamos explorar algo diferente do que vínhamos fazendo há algum tempo. Nós sabíamos que precisávamos ir para algum lugar e reinventar."
Como parte do processo, o grupo descartou Bob Rock, seu produtor desde "Metallica" (1991), também conhecido como o "Álbum Preto", que vendeu mais de 22 milhões de cópias em todo o mundo. Em seu lugar a banda contratou Rick Rubin, cujos créditos ecléticos incluem álbuns para Slayer, Run-DMC e Beastie Boys, assim como Tom Petty & the Heartbreakers, Johnny Cash e Neil Diamond.
Rubin, por sua vez, "começou fazendo com que nos sentíssemos bem revisitando algumas coisas por onde passamos antes", diz Ulrich, citando álbuns inovadores como "Kill 'em All" (1983) e "Ride the Lightning" (1984).
Durante a turnê de "St. Anger", o Metallica gravou todas suas sessões nas salas de aquecimento nos bastidores para cada show. Cerca de 150 noites de jams pré-show deixaram a banda com o que Ulrich chama de "muitas idéias realmente ótimas".
Ele estima que metade de "Death Magnetic" nasceu "desses jams de aquecimento em várias arenas de cimento ao redor do mundo, em 2003 e 2004".
A mesma metodologia pode alimentar o próximo disco da banda, já que um novo álbum significa mais shows do Metallica, como promete Ulrich. Muitos shows. Já há datas marcadas até a metade de 2009, e na primeira parte da excursão o Metallica está de volta tocando no centro da arena, como fez durante a etapa de arenas da turnê de "St. Anger".
"Quando você toca no meio da arena, você tem quatro fileiras da frente. Você fica mais próximo de uma porção maior do público. É tudo uma questão de acesso, acesso aos fãs e acesso à banda."
E esses fãs terão que esperar outros cinco anos entre álbuns, como tem sido a norma ultimamente para o Metallica?
Ulrich ri da pergunta, mas rapidamente fica sério enquanto pondera as atuais circunstâncias da banda.
"As coisas não ficam mais fáceis. Eu adoraria lançar álbuns com mais freqüência, mas... eu não quero perder o crescimento dos meus filhos. Nenhum de nós quer. Talvez, quando meus filhos estiverem na faculdade, nós lançaremos um álbum por ano ou a cada seis meses, como as bandas faziam nos anos 60. Mas não será assim por algum tempo."
"Então serão outros cinco anos? Quem é que sabe?" conclui Ulrich. "Eu não prenderia minha respiração por algo mais rápido, mas manteremos você informado."
Fonte: UOL Música
|