James Hetfield: Discussão sobre as letras do Hardwired

So What! - Digital SW! - 19 de Novembro de 2016 - Por Steffan Chirazi
Tradução em português feita por Metallica Remains.

Hardwired... To Self-Destruct

É sempre animador quando uma conversa caminha para uma daquelas tangentes que leva a todo um mundo novo de discussão. Quando eu me sentei com James Hetfield alguns meses atrás para discutir o projeto Hardwired..., eu não tinha planejado mergulhar em cada uma das letras das músicas. Eu tinha alguns tópicos e achei que seria isso. Em vez disso, James estava bem entusiasmado com a ideia de ouvir o que eu achava que se tratava cada música, antes de oferecer o que ele estava pensando. Um ponto importante a ser ressaltado – James está muito interessado que você, prezado leitor, não apenas relacione as letras como obras para você, mas também que você compartilhe seus pensamentos com a gente se você topar.

“HARDWIRED”

James Hetfield: Bem, essa foi a última música que escrevemos. Estávamos juntando tudo, o primeiro número era um dois, o que é bem marcante. Estávamos falando de algo do comprimento do Ramones ou Misfits.

Steffan Chirazi: Dois minutos?

JH: Sim.

SC: Jesus.

JH: Então as coisas ficaram um pouco mais longas, mas ainda tem menos de quarto minutes, o que é ótimo ainda assim. É tão simples. Quando você pensa sobre as letras, não é Shakespeare, eu sei disso. Mas é uma somatória de todo o álbum. Ela nos deu um pouco da direção de onde ir com o título do disco. Vamos apenas somar todas as partes do disco, sabe, os humanos estão realmente fazendo a coisa certa? E na história, não somos quase nada. Vamos deixar de existir? Estamos sendo substituídos por eletrônicos? Estamos nos tornando isso? Vamos nos auto-destruir por conta de nossos egos e todas as coisas que tornam humanos humanos? Devemos ser robôs? Isso é melhor? Você entra na ficção científica, você pensa em todos os tipos de coisas, mas sabe, quando o homem começou, qual era a ideia?
Toda a frase, “Hardwired to self-destruct” (Programado para se auto-destruir), veio de um amigo meu, que estava apenas soltando isso como um viciado em conflito, tipo, “isso é o que é? É assim para gente? O nosso padrão é morrer antes do que deveríamos? Destruir nossas vidas, como se estivéssemos programados para nos destruir?”. Isso chamou minha atenção.

“ATLAS, RISE!”

SC: Eu senti que era sobre martírio, foi isso que pareceu pra mim, uma observação de martírio criado por si próprio.

JH: Claro, sim. Só a mitologia de Atlas e ele ser forçado a carregar o peso do mundo por conta do que aconteceu antes. Esse foi seu legado, esse foi seu dever. E há pessoas que eu acredito que vivem nesse estilo de vida, vivem pensando que são os mártires das pessoas que não tem voz, ou disso e daquilo, salve isso ou não salve aquilo. Levando a responsabilidade um pouco além, e então rebaixando os outros quando eles não acreditam em você, ou não te apoiam. Como você pode não apoiar isto? Com o martírio e a culpa, é como um batalha de certa forma, alguém pensando que tem mais responsabilidade do que tem de fato. E é como, “Cara, tire esse peso. Apenas se livre dessa merda, ou dê um pouco disso para mim”. Toda essa música meio que começou com um pouco de um sentimento de, “Coloca o peso bem em mim”, e basicamente, “Você não precisa carregar todo esse peso. Dê [um pouco] para mim. A vida é realmente difícil para você, eu vou te ajudar”. Mas então você descobre que “Espeeeeereeee um pouco, eles acabaram de dar um pouco disso para outra pessoa, e aquilo e aquilo, e UAU. Tá certo. Tudo bem. Pare de usar sua angústia como algum tipo de martírio.”

“NOW THAT WE’RE DEAD”

SC: Eu senti que era uma questão de fé, ou de conforto, na morte para gente, com tudo sendo a mesma coisa no fundo.

JH: Sim, no final, somos todos iguais. Ter algo para acreditar, talvez exista vida após a morte. Talvez ela tenha começado como querer ser mais uma espécie de Romeu e Julieta dos dias atuais. Nós estamos nisso juntos. Ajudar um ao outro durante a vida. E sabe, “now that we’re dead” (“agora estamos mortos”), isso pode significar muitas coisas. Na verdade, você está morto. Você está na próxima vida. Ou vocês passaram por alguma coisa horrível como casal. Agora ambos estão do outro lado disso. Então, confiar em outra pessoa. E no fim, seus comportamentos, seja o que você fez, são apenas comportamentos. Vocês podem consertá-las, vocês podem repará-las, e juntos, seguir com uma consciência limpa. Há também uma exploração de sentimento de, tipo, “Eu não sei que vem a seguir – vamos tentar. Vamos. Vamos fazer isso.”

“MOTH INTO FLAME”

SC: Parece ser sobre o preço da fama vesus a sedução de tentações vazias, meio que uma meditação de tudo isso.

JH: Sim, “Moth Into Flame” é bem literal. E atualmente todo mundo... Eu acho que é uma obsessão em ser famoso. Ser popular. Seja na sua conta do Facebook ou, sabe, andando na rua, vendo alguém tirando selfies, sabe, enquanto caminham na rua. Tipo, o que? O que você está fazendo? Sabe, quão envolvido e absorvido você está? Mas eu acho que as próximas gerações estão mais atentas às coisas e aceitando as coisas ao redor delas. A inspiração principal dela foi o filme da Amy Winehouse, AMY, onde ela sofreu lavagem cerebral de certa forma. Ela começou a “acreditar”. Houve uma cena que realmente me perturbou, quando ela estava saindo de seu flat. Ela estava saindo fazendo alguma coisa, e os paparazzis estavam em todos os lugares, “Ei, Amy, como você está hoje? Como está seu amigo bla-bla?” E “clic-clic-clic” [imitando os barulhos de câmera – ED] e, “nós somos seus amigos”, mas “oh, clic-clic”. Tão perturbador. E, Deus, como você sabe quando está nessa bolha, como você sabe o que é real, o que não é? Você tem pessoas ao redor falando, “Sim, sim, sim”. E ela se perdeu. Ela se perdeu totalmente, e ela começou a acreditar nisso, ela acreditou nesse mito de que a fama é a melhor coisa que existe. E, sim, a limusine se transformou em um carro de funerária...

SC: Bem literal. Bem verdade em alguns casos.

JH: Bem, na linha de abertura também. Depois do show, quando você acabou de fazer algo ótimo, você está conectado com isso tudo [a plateia – ED], e então você corre para a limusine passando por todas as pessoas e você fecha a porta. E então tem todas as coisas que você precisa, sua bebida, suas coisas, seu amigo, seu seja lá o que for. Você vai de insanidade para insanidade difícil.

“DREAM NO MORE”

SC: É uma sequência conceitual dos lances de pesadelos da “...Sandman”?

JH: Interessante.

SC: É um riff primordial e é uma vibe primordial. É, digo, é provavelmente uma das músicas mais lentas que eu acho que essa banda já escreveu, mas é tão pesada.

JH: Eu a amo também. É um ótimo riff, especialmente no refrão, o “turn the stone”. Sabe, quando você estava apenas falando essas palavras, é meio como a mídia. Você está sentado lá, você não pode desviar o olhar, você está olhando o terror, você está olhando todas as coisas horríveis que estão rolando, e você não pode desviar o olhar e então eventualmente você acaba ficando entorpecido a tudo isso. Mas também, foi basicamente uma sequência de “Call of Ktulu” para mim. Foi a resposta de Cthulhu. Na mitologia, ele se ergue, e se você apenas olhar seu reflexo, você vira pedra, ele é tão terrível e horrível.

“HALO ON FIRE”

SC: Eu senti que esta era uma visão direta sobre batalhar a escuridão interior, depressão.

JH: Você pode relacionar quase coisa a esta, realmente. Obviamente “Halo On Fire”, há uma justaposição todos nós, bom, mau, e quando isso sai, quando isso se mostra? Algumas pessoas se passam como santas, e quanto maior é sua escuridão, mais elas se fingem de santas. Então você está basicamente fugindo do seu “você” verdadeiro, como se estivesse compensando por todas essas coisas que você acha que é realmente ruim.
Eu também acho... Como era o nome daquele filme? Cinquenta Tons de Cinza? Eu nunca vi, mas eu vi alguns destaques dele que era tipo, “Oh, este cara é bem sucedido e olhe este cara”. E então ele tem seu porão de tortura e terror, tudo para seu prazer, e as pessoas estavam caindo nisso e querendo isso. E então no fim, ambos sangram. Não é bom para ninguém.

“CONFUSION”

SC: Esta me pareceu claramente ser sobre estresse pós-traumático...

JH: Absolutamente, sim. Estresse pós-traumático em geral, trauma pós-guerra nas forças armadas e ser colocado em cenas horríveis é um sinal bem óbvio de estresse pós-traumático, e voltar para casa disso, e tentar voltar para casa e ainda viver aquilo, e ter um medo de ver algo que te afetou tanto como um trauma dentro de você que é carregado para casa. O filme Sniper Americano foi um grande retrato disso. Se prendeu no “Eu preciso salvar meus irmãos, se eu não voltar eles vão morrer”. Usando de novo esse tipo de “mártir” como uma desculpa para o vício do drama da guerra, e negligenciar sua família em casa. Então, meio que se liga as outras músicas, mas o estresse pós-traumático está em todos os lugares, cara. As coisas que acontecem com você em sua infância, ou sabe, personalidades do esporte, qualquer um que veste um uniforme, que saiu por aí por e representou uma vida de serviço, de doação, ou usando força, poder. “Saia lá e mate. Saia lá e pegue todos eles”. Há muitas formas diferentes de estresse pós-traumático, mesmo em uma banda. Você está na estrada, e isto pode soar como reclamação, mas não é, é apenas te contando como é. Você está na estrada, aqui está seu itinerário. Aqui está o que você está fazendo. Aqui está a imprensa. Aqui está isto, aqui está aquilo. E tudo está resolvido para você. Aqui está onde você come, aqui está onde você vai dormir e vai lá e se divirta no palco, e está tudo planejado e você é elogiado por isso. Foi um ótimo show, e então você vai pra casa; “Qual o meu plano? O que eu farei hoje?”. Sentindo um pouco perdido, tentando se ligar a sua família. E eles falando, “Onde você está? Alô?” Tudo foi cuidado. Por que eu sou necessário? Eu não sou necessário! Eu poderia falar pra sempre sobre isso…

“ManUNkind”

SC: Este pareceu completamente, biblicamente apocalíptico. Digo, apenas um reinício total, é distópico e bem sombrio. Bem do jeito que gostamos!

JH: Sim… Bíblico, o Jardim de Éden. “Uau, você tem tudo isso, mas quer mais?” Você tem toda essa grandeza e então é despedaçado... A história bíblica... Mas vamos voltar a bondade do homem. O homem é pecador e tem que rastejar e tentar compensar, é como se sempre estivéssemos abaixo dos olhos dos poder superior, e temos que nos provar diariamente de que não somos maus. E ter fé neste mundo onde mundo está por conta própria. Encontrar a negatividade em um bando de coisas é... No fim, ter fé no homem. Ao invés de apenas culpar a humanidade. Sim, tem algumas pessoas desagradáveis por aí, mas ter fé de que superaremos isso, ou que elas aprendam com isso, e de alguma forma se tornem mais parte da solução do que do problema.

SC: Parece que você se tornou bem mais o observador do que julgador de todas essas coisas durante os anos. Você acha que é um comentário justo?

JH: Sim, eu diria que sim. Eu acho que passar pelo que passei, ter compaixão pelos outros que estão batalhando também, e não apenas olhar o resultado de suas batalhas. Tipo, “ele roubou aquela coisa”, ou o que for, voltar e ver o que aconteceu ao invés de julgar. Encontrar algo em comum.

“HERE COMES REVENGE”

SC: Eu senti que era bem sobre essas histórias tristes que você lê sobre uma criança ser morta? Lidar com isso, como você faz, como você pode?

JH: Sim. Tem a Morgan Harrington. Apenas toneladas de coisas sobre famílias que tem alguém que foi tirada delas. Tem um amigo meu cujo filho morreu, e eu não vou dar nomes, tem um casal que nos seguiu em turnê por bastante tempo que foi bem instrumental nessa música e inspirador para mim. Sua filha foi morta por um motorista bêbado. E ela amava Metallica, e a forma que esta família está se mantendo conectada com ela é vindo aos shows do Metallica e curtindo o que ela curtia, e talvez se conectando dessa forma. Eu acho isso bem incrível. E bem forte. É uma coisa tão vulnerável para acontecer com você. Digo, isso destrói sua vida; você apenas se senta lá e pensa sobre isso o tempo todo, reflete sobre isso o tempo todo. “O que eu poderia ter feito para mudar as coisas? E se, e se?” E como você pode não ficar bravo? Como você pode não ficar bravo com a pessoa que tirou a vida da sua filha? Essa é a força de verdade, para mim. Pois estou apenas escrevendo da minha perspectiva o que eu faria. Sabe, eu rezaria para que a vingança acontecesse e acharia que essa é a resposta, quando no fim eu sei que não é.

“AM I SAVAGE?”

SC: Me soou como uma mania de lobisomen. Pode ter mais por trás disso, mas tem um lobisomen e pareceu meu alegórico do que talvez algumas outras coisas.

JH: Sim. Digo, é bem mais profundo do que pode parecer. Tem esta frase lá sobre herança. Essa foi uma palavra tão, tão forte para mim neste álbum. Estava pensando que este podia ser o título do disco, sabe, Herança. Bom ou mau, você precisa herdar algo. Seja em seus genes, em seu sangue, em sua conta bancária, em sua aparência, o que for. Você herda coisas. E ter um menino adolescente é difícil para um pai às vezes. Você tem orgulho do seu menino, mas vou te dizer, as meninas são uma história diferente. As meninas e a mãe tem um problema. Os meninos e o pai tem um problema, pois eles vão crescer para serem você e eles não querem ser você. Eles querem ser alguma outra coisa. Eles querem ser eles próprios, e, putz, eu estava tentando tanto que o Castor fosse o que eu não era. Ou, “Você precisa aprender isto pois meu pai nunca me ensinou isso!” Eu senti que era meu propósito como pai; se eu não o ensinasse as coisas, eu seria um pai de merda. Quando no fim, ele quer fazer suas próprias coisas. E quando eu recuo, ele floresce. Ele faz o que ele quer. Ele começa a crescer em sua vida. Então todo a “raiva por trás de uma boa intenção”. Minha boa intenção aqui é ensinar algo pra você, e então quando você não quer, eu fico bravo! É mais sobre mim. Então, do meu pai usar a raiva como uma grande ferramenta na casa para ser ouvido, a mesma coisa comigo. Essa foi minha herança e eu comecei a passar isso para meu filho, e eu parei. É algo bem grande.

SC: Você acha que está mais perto de entender essa “herança”? Você se sente mais próximo disso? Você se sente mais confiante em poder ver o “lobo no espelho”, se quiser?

JH: Sim. Eu dei permissão a minha família também. Sabe, “Pai, se acalme” E essa palavra bem ali seria o gatilho para eu virar outra coisa. Mas é meio que humano, eu acho, ou pelo menos parte da minha humanidade, e estou trabalhando nisso. Estou mais lá do que estava antes.

“MURDER ONE”

SC: Lemmy.

JH: Sim. Murder One. Muita gente não sabe o que é o Murder One, e eu tentando ir fundo, pelos cantos, e falar sobre ele sem ser extremamente direto. Mas sim, Murder One era seu equipamento, seu amplificador favorito. E eu sei que ele tinha mais de um, mas este foi o que se destacou para mim. Sim, apenas respeitar Lemmy, pois sem ele, eu não acho que o Metallica estaria por aí, e provavelmente muitas outras bandas também não. Ele foi uma inspiração. Ele era uma força inabalável, mas não inacessível. Ele era bem pé no chão, bem real. Ele tinha ótimas filosofias na vida. E ele era um personagem adorável, embora ele parecesse completamente ameaçador, ele era adorável. E sentiremos muita falta dele. Então eu pensei porque não celebrar a ele e sua vida em uma das músicas. Isso é o que ela significa para mim.

“SPIT OUT THE BONE”

SC: E bem, a conclusão do disco, que é outro riff destruidor, sugerindo um futuro que leva a um lugar onde máquina e inteligência artificial dominam, como um 2001 [2001: Uma Odisseia no Espaço, filme de Stanley Kubrick - ED] do inferno.

JH: Sim, e obrigado GBH pela frase “spit out the bone”. Eu sei que a música delas era um pouco diferente. A música deles era sobre o Donner Party e canibalismo. Esta é um pouco diferente, apenas a ideia e o medo de, de novo, o que está acontecendo com o homem. Sem enrolar demais, apenas a possibilidade do Exterminador do Futuro, coisas assim, sabe? Estamos usando smart watches, as coisas estão ficando cada vez mais próximas de estarem na gente. Por que eu não teria a internet o tempo todo na minha cabeça? Por que eu teria que me preocupar com todas essas “emoções”? Se apaixonar e ter o coração partido? Isso não faz bem para ninguém. Sabe, o coração e sangue? Está no caminho para a eficiência! Nós poderíamos ser muito mais eficientes se deixássemos os computadores apenas nos ajudar. E sim, eles estão nos ajudando, mas quão longe isso vai? Toda essa loucura. Então a “Spit Out The Bone” é que seus ossos não são necessários. Eles quebram!




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