James Hetfield: Indestrutível

Revista Classic Rock - Edição de Julho de 2009
Tradução em português feita por Metallica Remains.

Ele é derrubado, mas se levanta de novo. Conheça o verdadeiro James Hetfield - o gigante do metal cujo passado inclui um lar destruído e crescer com ensinamentos religiosos extremos e que ajudou a definir a trajetória do Metallica, através de brigas, tragédias, alcoolismo, abuso de drogas e colapsos.

Há uma cena no documentário de 2004 do Metallica, "Some Kind of Monster", onde o baterista Lars Ulrich petulantemente expressa sua insatisfação com o modo de gravar pós-reabilitação de James Hetfield. Especificamente, Ulrich está infeliz com o édito de Hetfield de que todo o trabalho do vindouro álbum, "St. Anger", terminasse as quatro horas da tarde para que o vocalista pudesse passar tempo com sua família. Ulrich se inquieta e resmunga: "eu percebo agora que eu mal te conhecia antes", disse ele. É uma linha jogada, mas que ressoa entre os fãs do Metallica. Afinal, desde que a banda lançou seu álbum de estreia, "Kill 'Em All", em 1983, Hetfield visivelmente se desenvolveu no arquétipo frontman de metal. Um artista intenso, descompromissado, de carisma brutal, o tempo livre de Hetfield era preenchido com mulheres fáceis, bebedeiras, southern rock e caçadas. Para sua platéia, Hetfield era um ícone a prova de balas dos bons tempos de bate-cabeça e força através de grande riffs. Eles sentiram que eles realmente conheciam esse homem - mas eles estavamente inteiramente enganados.

Sentando em um sofá de pelúcia roxa em seu escritório na base californiana de operações da banda, H.Q., o Hetfield de hoje pontua seu jeito de falar da costa oeste com a risada nervosa ocasional enquanto ele responde as questões com a sinceridade de um veterano da terapia. Como evidenciado pelo sucesso crítico e comercial do álbum de 2008 da banda, "Death Magnetic", um James Hetfield menos armas, bebedeiras e pequenos mas persistentes "problemas" que não fizeram nada além de deixar o Metallica menos afiado. Nós falamos por uma hora e meia, tempo que Hetfield provou ser longe de uma celebridade coitadinha lutando para viver sóbrio. Ao contrário, ele é amável e inteligente, mesmo quando discute detalhes mais dolorosos de sua memorável história de vida.

Classic Rock: Como foi sua infância?

Hetfield: Eu cresci no subúrbio de Los Angeles, bem classe média. Nossa casa era ótima. Eu podia andar até todas as escolas que eu frequentei - ginásio e colegial, tudo bem próximo. Meu pai era um caminhoneiro, foi eventualmente dono de uma empresa de caminhão. Minha mãe era uma mãe de ficar em casa, ela era uma artista - ela pintou e fez algumas coisas de design gráfico. É engraçado, eu lembro de estar sozinho em casa várias vezes, o que é estranho. Eu tinha dois meio-irmãos mais velhos e uma irmã mais nova. Era difícil na casa, com certeza. Eu só estava tentando me ajustar ao meu pai. Ele estava se casando com uma mulher que tinha dois adolescentes e o quão difícil isso seria. Eu me lembro de ser muito solitário, vendo minha irmã arrumar muita confusão. Uma criança do tipo bem rebelde e barulhenta. Eu vi quais foram as consequências para ela, então eu meio que fui para o outro lado. Eu estava meio que disfarçado em minhas coisas para fugir, o que não me fez bem.

Classic Rock: Você cresceu na religião Ciência Cristã?

Hetfield: Isso foi bem interessante embora alienador... Minha realidade sobre isso é que isso foi bem alienador para mim quando criança. Agora, sendo mais velho, eu posso entender a religião um pouco mais. O poder da mente permitindo pensamento positivo para te curar, tentar não reconhecer a doença, coisas desse tipo. Não ir a médicos, basicamente ignorar toda essa inteligência. Isso não fazia muito sentido para mim. Eu pensaria, agora, em minha vida, que eles funcionaram bem juntos. Sim, há um poder da mente mas há o conhecimento que aprendemos. Alguém quebra o braço dele ou dela, você vai engessar pelo menos. Isso não era nem permitido. Eu não podia ir na aula de saúde quando criança. Você está aprendendo sobre como seu corpo funciona, coisas assim. Eu não era permitido aprender isso. Eu tinha que sair da classe e ficar no corredor ou ir para a sala do diretor. Era mais como uma punição. Meus pais estavam tentando me tornar melhor ao me manterem afastado dessas coisas, mas era bem mais o oposto. Meu pai se separou quando eu tinha 13 anos. Nesse ponto, eu só disse para minha mãe: "Eu não vou mais na escola dominical. Me faça ir." E foi isso.

Classic Rock: O que você se lembra do divórcio?

Hetfield: Foi bem confuso para mim, como criança, não saber o que estava rolando. Foi meio que escondido. Esse é um grande defeito de caráter que eu ainda carrego - eu acho que todo mundo está escondendo algo de mim. Meu pai saiu e por meses e meses nós não tínhamos idéia de que ele não voltaria. Minha mãe disse que ele estava numa viagem de negócios, e finalmente disse a verdade. Só o medo de ser o homem da casa, também, não saber o que fazer. Sentir como se eu não tivesse aprendido o suficiente de meu pai, que ele não estava lá para mim e todas essas coisas começaram a se juntar. Muito ódio dele. Ele nem disse adeus. Eu não tenho idéia, sério, do que estava rolando entre os dois. Poderia ser algo completamente horrível onde ele teve que simplesmente sair ou outra coisa. Mas eles eram ambos extremamente religiosos, e para mim isso vai contra todo o negócio de divórcio. Abandono. Então eu tinha problemas de abandono. Então a minha mãe faleceu cerca de três anos depois disso. Eu atribuo isso muito ao desconforto com o divórcio e o tumor lá. Foi bem traumático.

Classic Rock: Presumidamente, ela não recebeu tratamento para sua doença?

Hetfield: Não, não, definitivamente não. Ela não estava nem interessada em descobrir o que era. Nós assistimos minha mãe definhar. Minha irmã e eu olharíamos um para o outro e não podíamos dizer nada. Era toda a lógica de saber da doença, então é lógico que você vai ficar doente. Meus irmãos, finalmente - eles eram velhos o suficientes para entender isso - disseram: "Algo está bem errado. Vamos conseguir ajuda pra ela". Mas era tarde demais. Câncer, ela morreu disso. Eu tive que ir morar com meu irmão por um tempo, deixando todos os meus amigos, na metade do colegial. Felizmente, eu tinha um irmão mais velho, David, que estava até que bem e estabilizado. Ele tinha uma esposa. E isso meio que colocou sua vida de lado, eu e minha irmã. Minha irmã não durou muito tempo - ela era problema demais. Eles encontraram meu pai e ela foi viver com ele. Eu não queria nada com ele. Demorou muito tempo para eu voltar a falar com meu pai e meio que perdoar e finalmente aceitar o amor incondicional de pai e filho. Mas ainda assim, havia várias perguntas sem respostas. Ele faleceu. Muitas das coisas que precisei passar na terapia remete a minha infância e a minha realidade versus a realidade deles.

Classic Rock: Quando foi a primeira vez que você tomou remédio?

Hetfield: Quando eu estava vivendo com meu irmão, eu tive uma dor de cabeça forte. Eu costumava ter enxaqueca o tempo todo quando criança. Eu não achava que havia algum tipo de alívio ou ajuda para isso. Rezar não parecia funcionar para mim e essa era a única receita em casa, isso ou ler a bíblia. Eu lembro do meu irmão me dar um pouco de aspirina pela primeira vez e eu enlouqueci. "O que isso vai me fazer sentir, o que isso vai fazer?" Nessa hora eu percebi os benefícios do conhecimento dado por Deus ao nosso redor, cuidando de nós.

Classic Rock: Quantos anos você tinha nessa época?

Hetfield: Provavelmente 16 ou 17 anos. Eu não tomei nada dessas coisas na escola - o que eu meio que me orgulho. Vai saber o que nos davam quando criança?

Classic Rock: Nessa época você estava aprendendo guitarra?

Classic Rock: Minha mãe me levou para aulas de piano porque nós estávamos na casa de um amigo, eu comecei a bater no piano e ela pensou que eu seria virtuoso [risos]. Três anos de aulas de piano na casa de uma idosa que tinha um cheiro horrível. Eu percebi bem cedo que isso era uma ótima ferramenta de comunicação. Eu gostava de ficar sozinho, eu gostava de me fechar para o mundo. E a música ajudou muito com isso. Eu colocava os fones de ouvido e simplesmente ouvia música. Música seria minha voz e ela se conectou em tantos níveis. Fazia totalmente sentido de que eu gostaria de me expressar dessa forma. Tinha tudo a ver com Kiss e Aerosmith. Esse foi o primeiro show que eu fui - Aerosmith e AC/DC na Long Beach Arena [12 de Julho de 1978]. Eu também amava Ted Nugent, Alice Cooper. Muitos dos rocks mais pesados e novos que eram americanos naquela época. Eu não curtia outras coisas até ser introduzido pelo Lars dois anos mais tarde.

Classic Rock: Como você conheceu o Lars?

Hetfield: Quando a gente se encontrou pela primeira vez, eu estava no colegial tocando guitarra com um amigo meu e tentando levar a banda dele, Phantom Lord. Nós respondemos ao anúncio de Lars no jornal, nos encontramos em um pequeno depósito em algum lugar, ele arrumou sua bateria, e ele não era muito bom mas tinha motivação, ele tinha conhecimento. Ele tinha a vontade e as aspirações que eu tinha.

Classic Rock: Culturalmente, quão diferentes eram vocês dois?

Hetfield: Extremamente. Além de não tocar muito bem naquela época, haviam alguns cheiros diferentes vindos dele [risos]. O estigma de ser europeu é que eles não fabricam sabão por lá e ninguém toma banho. Indo a casa dele - definitivamente uma sensação diferente. Bem amigável, bem aberta. Minha casa era bem fechada. Se você não acreditava em nossa religião... Nós não tínhamos muitos convidados. A casa de Lars era exatamente o oposto. Bem hippie, bem, "pode entrar".

Classic Rock: Aparentemente Lars tinha uma coleção de discos bem impressionante.

Hetfield: Não diria que ele foi mimado, mas como filho único, ele tinha muitos discos. Eu entrei e não podia acreditar. Eu tinha minha pilha pequena; ele tinha uma parede inteira do quarto coberta de coisas. Ele simplesmente iria na loja de discos e falaria: "eu quero conferir esses caras". Eu não podia pagar isso. Mas, cara, eu fui e comecei a gravar tudo que eu podia dele.

Classic Rock: Você era tímido naquela época?

Hetfield: Muito. Eu era muito recatado, não confiava realmente no mundo, por causa do que passei quando criança. Então, beber me ajudou a liberar um pouco, mas no final, foi pior. Eu cavei uma cova ainda mais funda para mim mesmo.

Classic Rock: Havia um sentimento de que o Metallica se tornou sua família?

Hetfield: Sim, sim. Sem dúvida. Eu procurava por pessoas com as quais podia me identificar. Eu não podia me identificar muito com a minha família e, basicamente, quando criança, ela se desintegrou bem na frente de meus olhos. Há uma parte de mim que anseia família e outra que simplesmente não aguenta pessoas. No fim, eu me senti como um lobo solitário, mas sabe, eu sinto que eu preciso de família, mas não o tempo todo.

Classic Rock: Você estava feliz de ver as costas de Dave Mustaine?

Hetfield: Eu não sei se "feliz" é a palavra certa, mas era necessário. Teria eu, Lars e ele todos tentando liderar e isto seria uma confusão triangulada. É óbvio que ele queria o mesmo caminho que nós - ele continuou a fazer ótimas coisas no Megadeth. Do jeito que as coisas estão hoje, as dinâmicas de caráter, Lars e eu somos metade da escala com Rob e Kirk sendo a outra. Eles são pessoas de ótimas idéias, mas muito boas em estar ok em deixar alguém liderar. É preciso disso, eu acho. Eles não ligam para egos e Lars e eu somos o contrário, parece. Isso que me disseram [risos]. Então naquela época, Dave tinha que ir.

Classic Rock: Em Some Kind of Monster, ele parece bem infeliz com isso.

Hetfield: Ele é uma pessoa incrível, talentosa. Talvez parte de seu caráter seja só ter esse peso em suas costas. Se eu fosse chutado do Metallica, eu também teria. Ron McGovney, nosso primeiro baixista - peso muito grande em suas costas. Eles não são capazes de realmente estar confortáveis com o agora, e é difícil de ver. Lars também disse isso na entrevista: "Você não vê o que você fez?" Mas nada disso importa porque ele está buscando algo inalcançável.

Classic Rock: Passar pelo falecimento da sua mãe tornou a morte de Cliff mais fácil?

Hetfield: Nunca é fácil. Você não se acostuma com isso, especialmente naquela idade, e a mentalidade que eu tinha, beber tanto para afogar qualquer sentimento... Essa era outra parte da Ciência Cristã: não havia funerais, período de luto onde você poderia chorar e ser amparado. Era simplesmente: "Ok, o recipiente está morto, o espírito se foi e prosseguiu a vida". Então quando Cliff morreu houve um funeral, mas eu não senti o sentimento. Eu só bebi mais. Bebi para esquecer.

Classic Rock: Lars disse que antes do acidente, você e Cliff se tornaram próximos, e um dos efeitos da tragédia foi que você e Lars se tornaram próximos depois disso. Você concorda com isso?

Hetfield: Sim. Cliff e eu realmente nos identificávamos um com o outro. Nós gostávamos muito das mesmas coisas. Mesma música - ele curtia mais Southern rock, Lynyrd Skynyrd, coisas desse tipo, que eu amo. Ele amava estar solto na natureza, fazer trilhas, acampar para caçar, beber cerveja. Ele e eu nos identificávamos um com o outro.

Classic Rock: O que você mais lembra sobre o acidente em que ele morreu?

Hetfield: Era tão frio. Nós estávamos na Suécia no inverno. Eu dormiria no banco de trás para que pudesse ser um pouco mais quente. Eu estaria bem do lado dele. Sabe, eu não penso nisso. É o que é. Nós sobrevivemos por alguma razão para continuar. Nós certamente sentimos falta de Cliff. Tantas coisas poderiam ter sido diferentes.

Classic Rock: Você acha que entraram em turnê de novo muito rápido depois da morte de Cliff?

Hetfield: Eu acho que nós fizemos tudo muito rápido depois disso. Conseguir um baixista, entrar em turnê. Nós voltamos direto. Essa foi a forma da gerência lidar com o pesar: "só toque através da sua música". Agora parece como se não tivesse tido pesar o suficiente ou respeito o suficiente, e o suficiente de lidar um com o outro e ajudar um ao outro a superar. Nós voltamos a estrada e descontamos muito disso no Jason [Newsted] assim que ele entrou. Era mais como: "sim, nós temos um baixista, mas ele não é o Cliff".

Classic Rock: Você gostava do Jason?

Hetfield: Sim, eu gostava do Jason. Havia um sentimento realmente positivo nele. Bem estilo criança, mas não infantil. As coisas que nós gostávamos, as coisas que curtimos, compor juntos, foi divertido. Então começou a crescer a fama, alguns ressentimentos foram criados e as coisas mudaram para todos nós.

Classic Rock: Lars declarou que um possível título para o disco de 1988 "...And Justice For All" seria "Wild Chicks, Fast Cars And Lots Of Drugs" ["Garotas Selvagens, Carros Velozes e Muitas Drogas"]. Isso era um retrato preciso da banda naquela época?

Hetfield: Bem, nós todos tivemos nossas batalhas, todos tivemos imoralidades que estavam crescendo monstruosamente, sabe. Sim, nós estávamos lutando contra demônios. Em um ponto, tranformou-se de diversão em destruição. Começou a nos dominar. Justice estava começando. Nós tínhamos terminado o "Master of Puppets", saído em turnê com o Ozzy e começávamos a tocar nosso próprio som. As coisas estavam dando certo e coisas se tornaram disponíveis - mulheres, festas, chame do que quiser. Nós ficamos envolvidos nisso. Era como era pra ser. Naquela época, sabe, eu não sei quem de nós era casado, mas eu com certeza não era, então estava tudo certo. Nem tanto para as namoradas esperando-nos em casa mas, sabe, são coisas que você tinha que fazer quando criança como um aprendizado. Era divertido. Você tem que fazer tudo isso para descobrir que 'bem, isso não faz parte da música'. Era como uma faixa bônus, mas começou a tomar conta de todo o disco, sabe? [risos]

Classic Rock: Usar drogas não te interessou, então?

Hetfield: Graças a Deus não me interessou. Eu tinha medo de drogas. Talvez por causa da Ciência Cristã, mas também, no colegial, minha primeiríssima banda - apropriadamente chamada Obsession - eu me lembro de ter usado maconha e pensado: "Uau, isso é ótimo". Então eu fumei cinco baseados uma noite, fui tocar e cara, me pegou muito forte. Eu surtei, pensei que estávamos tocando a mesma música por meia hora. Não gostei.

Classic Rock: Como era o Lars quando usava cocaína?

Hetfield: Ah, cara. Tagarela? Mais ainda, se isso é possível. A merda de sempre. Eu não gostava de ficar perto deles quando eles usavam isso.

Classic Rock: Você era divertido quando estava bêbado?

Hetfield: Definitivamente não. Eu ficava bem violento. Tinha o momento feliz, mas a coisa ficaria feia onde o mundo está fodido e fode você. Eu virava... o palhaço e então o punk anarquista, querendo esmagar tudo e machucar pessoas. Eu entraria em brigas. Com quem? Às vezes com o Lars. É assim que os ressentimentos eram liberados, empurra empurra, atirando objetos nele. Nós tínhamos dois tipos de personalidade diferentes. Muito diferentes. Ele quer ser sempre o centro das atenções e isso me incomoda porque eu também sou assim. Ele está lá, encantando as pessoas enquanto eu as intimidarei para que elas me respeitem assim.

Classic Rock: Isso ainda é verdade?

Hetfield: Não. Eu acho que aprendi a desligar isso. Aquela parte minha me incomodaria tanto, porque nós éramos essa banda que era tão anti-Los Angeles, anti-Hollywood, não sendo poser, apenas faça, e ele estava lá, sendo um poser. Guns N' Roses era, pra mim, como parte do inimigo. Lars estava lá, com jaqueta de couro branco, fazendo pose. Lars é desse jeito, ele irá envaidecer-se com algumas certas pessoas na vida dele e precisa entrar nelas. É apenas uma parte dele, eu acho. Ele gosta de aprender com pessoas que tenham isso. Axl tinha.

Classic Rock: Foi difícil gravar "Nothing Else Matters"?

Hetfield: Não. No começo foi. Eu não queria nem tocá-la pra eles. Era tão sincera, tão pessoal pra mim. Eu achava que o Metallica poderia apenas ter músicas sobre destruir coisas, bater cabeça, sangrar pra multidão, o que quer que fosse, contanto que não fosse sobre garotas e carros potentes, mesmo que gostássemos disso. A música era sobre uma garota, uma namorada na época. Estava apenas começando a ser capaz de expressar outros sentimentos. Eu certamente não achava que era uma música do Metallica. Quando os caras ouviram eles ficaram impressionados de como eles, eu acho, relacionaram à banda. Acabou sendo uma grande e bela música naquele álbum.

Classic Rock: Era como um grande ponto de mudança?

Hetfield: Eu diria que sim. Aquilo abriu ainda mais a porta e nos deu carta branca para tocar muitos estilos diferentes de musica. Tocou muita gente.

Classic Rock: O que você lembra a respeito da turnê de 1992 com o Guns N' Roses?

Hetfield: Cara, foi uma turnê excedente: "ei, você vai no pós-festa?" Axl gastanto milhares de dólares nessas festas. Era muito extravagante, o que não tinha nada a ver comigo. As banheiras no backstage. Eu voltaria e beberia a cerveja deles e jogaria bilhar, era isso que eu fazia. Quando eles saíssem do palco, eu já teria ido, então não precisava sair com eles.

Classic Rock: Você se desenvolveu como esse reservado gigante.

Hetfield: Muito disso tinha a ver comigo provando minha masculinidade pra mim mesmo. Muitas das coisas que eu senti que meu pai não me ensinou, como mexer com carros, caçar, sobreviver. Coisas desse tipo. Eu realmente senti que eu tinha que ir e aprender essas coisas e provar a mim mesmo que eu estou bem, que eu posso fazer isso. Meu pai era assim.

Classic Rock: Você ainda caça?

Hetfield: Atualmente não parece necessário, matar coisas só por matar. Eu não sou contra caçar mas não parece mais tão necessário quanto andar a 150 milhas por hora em um carro [risos].

Classic Rock: O que mudou seu pensamento?

Hetfield: Nós fomos caçar - isso foi pouco antes de eu ir para a reabilitação quando eu pisei feio na bola - na Sibéria. Eu tinha uma mulher e flhos em casa: "até mais, eu estou indo para Sibéria". Eu fui na península de Kamchatka, caçar ursos cinzentos em motos de neve em quatro pés de neve. Se você cai da moto, está acabado. Eu vi uma pegada de urso e parecia bem humano para mim. Eu vi algo nisso que não fazia muito sentido para mim. Nós estávamos nessa cabana no meio do nada, a quatro horas de helicóptero dessa cidadezinha de merda. Beber vodka - não havia mais nada pra beber. Isso foi o fim pra mim.

Classic Rock: Você estava desconfortável com a nova imagem da banda para o "Load"?

Hetfield: Com certeza. Lars e Kirk lideraram esses discos. Todo o tópico "nós precisamos nos reinventar" estava de pé. Imagem não é algo ruim para mim, mas se a imagem não é você, então não faz muito sentido. Eu acho que eles buscavam na verdade uma vibe estilo U2, Bono fazendo seu alter ego. Eu não conseguia entrar no clima. Todo o negócio de "ok, agora nesta sessão de fotos nós seremos roqueiros glam dos anos 70". Tipo, o que? Eu diria que metade - pelo menos metade - das fotos que estão no livreto, eu me livrei. Todo o negócio da capa, era contra o que eu sentia.

Classic Rock: O que você não gostou da capa?

Hetfield: [Risos] Como eu posso dizer? Eu acho que quando eu falei sobre ressentimentos de ser deixado de fora dos laços que eles tinham através do uso de drogas - Lars e Kirk curtiam bastante arte abstrata, fingindo serem gays. Eu acho que eles sabiam que me incomodava. Foi uma afirmação para tudo isso. Eu amo arte, mas não para chocar os outros. Eu acho que a capa de "Load" foi só uma provocação disso tudo. Eu fui junto com essa coisa de maquiagem e todas merdas loucas, estúpidas que eles sentiam que precisavam fazer.

Classic Rock: Muito foi dito sobre os cortes de cabelos na época. Isso foi uma decisão do grupo?

Hetfield: [Risos] Não foi tipo a gente ir junto e então, "ei, a gente consegue um desconto por quatro cortes?" Simplesmente foi acontecendo devagar, com a idade, cabelos mais ralos. Cabelos longos não parecia mais certo.

Classic Rock: Musicalmente, essa foi a primeira vez que o Metallica esteve incerto?

Hetfield: Eu diria que sim. Aquele período todo. Por que nós precisamos nos reinventar? Muitos dos fãs se desanimaram muito com a música, mas principalmente, eu acho, pela imagem.

Classic Rock: Você se sentiu incomodado com Kirk e Lars se beijando nas fotos?

Hetfield: Totalmente. E é por isso que eles fizeram isso. Eu sou a força por trás das aventuras homossexuais deles. Eu acho que as drogas tinham alguma coisa a ver com isso também. Eu espero. [Risos] Tiveram várias vezes em nossa carreira que as pessoas pularam fora, e isso vai acontecer. É mais doloroso ouvir, "ok, estão quebrando discos do Metallica porque eles estão processando o Napster".

Classic Rock: Parece que o Lars liderou esse negócio do Napster.

Hetfield: Ele é o porta-voz da banda. Ele gosta de falar, ele gosta de estar por aí. Eu sou extremamente orgulhoso pelo que a gente fez. Tinha que acontecer. Nenhum artista se levantaria, exceto alguns artistas de rap. Nos estávamos abandonando a atitude rebelde e, cara, não poderia haver algo mais rebelde que isso.

Classic Rock: Na entrevista de 2001 para a Playboy, você disse que o Lars é um baterista ruim.

Hetfield: Ele admitirá isso. EU não sou um vocalista muito bom, mas algo acontece quando a gente toca junto.

Classic Rock: Você viu a terapia como algo não-macho?

Hetfield: Com certeza. Até o [produtor] Bob Rock introduzir um pouco de tempo para meditar antes de tocar, "sem chance! Vão se foder, caras. Vocês perderam a cabeça? Vamos só detonar!" Eu não estava aberto a isso.

Classic Rock: Você mudou de idéia?

Hetfield: Minha grande acordada. Esposa me botando para fora de casa. Minha esposa disse: "você não voltará até que arrume isso e faça alguma terapia. Não só beber, mas todas as outras merdas que vem com isso, sabe. O desrespeito, fazer o que você quer quando você quer". Eu tinha que crescer. Eu tinha uma família.

Classic Rock: Quando foi isso?

Hetfield: Isso foi durante o "St. Anger". Nós estávamos começando a compor no Presidio [ex-base militar]. Então, em certo momento da terapia, eu percebi como a minha vida estava fodida. Quantos segredos eu tinha, quão incongruente era a minha vida, e mostrando todas essas merdas para minha esposa. Merdas que aconteciam na estrada.

Classic Rock: Mulheres?

Hetfield: Ah sim. Mulheres, bebedeiras, o que for. Isso trouxe muito medo para os outros caras, sabe [risos]. Tipo eu sou esse cara que se vangloria disso e de repente: "er, uau, não é terrível, querido, que ele tenha feito isso? Você não faria algo assim, não é?" "Oh, claro que não!" Isso deixaram as coisas pretas - e já estavam ruins naquela época. Eu acho que foi a parte salvadora do Metallica, não há dúvida. Tinha que ter um fim de algum jeito. Minha esposa se ergueu e me disse: "Ei, eu não sou uma dessas suas 'sim senhor' da estrada. Cai fora."

Classic Rock: Qual foi sua reação?

Hetfield: Minha vida acabou, primeiro de tudo. Medo é um grande motivador e isso me motivou, ter todos esses problemas com abandono e perder um grupo, perder pessoas na minha vida.

Classic Rock: E parecia que você iria perder sua banda e seu casamento.

Hetfield: Os dois ao mesmo tempo. Então foi: "eu preciso juntá-los ou eles irão embora, e então o que farei?"

Classic Rock: Quando você voltou?

Hetfield: Minha esposa estava grávida de nosso terceiro filho. Ela é minha anjinha - Marcella. Minha esposa precisava de mim lá e eu fui capaz de estar lá no nascimento, o que foi incrível, e cortar o cordão e todas esses laços. Sim, minha filha basicamente nos uniu de volta.

Classic Rock: O que você acha do "St. Anger" agora?

Hetfield: Foi mais uma afirmação do que uma peça musical de trabalho. Nós tínhamos que fazer o "St. Anger". O cara que trabalhou com nós, o [terapeuta] Phil Towle, ele disse: "todo esse trabalho que vocês estão fazendo agora não é para este disco, é para o próximo".

Classic Rock: Bob Rock ficou chateado quando vocês decidiram que Rick Rubin produziria o "Death Magnetic"?

Hetfield: Espero que sim. Não de forma mesquinha. Nós ambos sabemos que ficou confortável demais, ficou fácil demais, e você precisa explorar. Talvez não houvesse mais tensão. Ele era um quinto membro da banda, uma figura paterna. Talvez nós sentimos medo de que não poderíamos fazer um disco sem ele, mas eu espero que ele sinta falta de nós, porque nós certamente sentimos falta dele.

Classic Rock: Você achou difícil fazer turnê sóbrio?

Hetfield: A princípio foi ótimo, mas assustador ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo era: "o que eu faço agora?" Mas quantas horas foram perdidas sentadas num bar em algum lugar, falando com pessoas que você nunca mais verá? Então eu fui passear, fazer as coisas que você faria se fosse sua primeira turnê. Os caras foram bem respeitosos.

Classic Rock: O que você e Lars tem em comum?

Hetfield: Além de crianças e uma vida familiar, nós gostamos muito de arte, embora estilos completamente diferentes de arte. Eu gosto de arte de personalização, arte sacra, fazer coisas para a banda. Ele curte muito arte abstrata. Conclua você mesmo sobre isso.

Classic Rock: Você ama o Lars?

Hetfield: Eu amo. Não há duvida de que nós fomos colocados nessa jornada por uma razão. Nós nos juntamos e, como minha esposa e eu, os opostos se atraem e é uma batalha sem fim. Nós temos essa química que funciona mesmo que ressentimentos entrem no caminho e nós não possamos ver algumas vezes. Há uma agitação, uma fricção, uma faísca que simplesmente acontece.

Classic Rock: Isto é algo que você poderia dizer há 10 anos?

Hetfield: Eu ainda poderia dizer isso naquela época. É um tipo diferente de amor. Nós não colocaríamos nossas famílias juntas e iríamos para o Havaí por uma semana. Mas, cara, quando algo acontece na estrada, alguém está desafiando o Metallica ou nossa habilidade, nós vamos agarrar a isso como se não houvesse amanhã. Nós vamos nos levantar, cuidar um do outro, e lutar até a morte.



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