Pauleira

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em 1 de Setembro de 2008

Metallica lança nono disco, "Death Magnetic", de volta ao thrash metal dos anos 80; o guitarrista Kirk Hammett fala sobre as brigas e o momento atual "de inspiração"

Menos de 24 horas após encerrar o festival de Leeds para 60 mil pessoas, o guitarrista Kirk Hammett espera pela imprensa num quarto do hotel Claridge's, um dos mais sofisticados de Londres.
Com lançamento mundial no próximo dia 12, "Death Magnetic" justifica o empenho da gravadora Universal em promovê-lo. O nono álbum de estúdio do Metallica tem tudo para alcançar boas vendas nesta atual fase negra do mercado fonográfico, uma vez que resgata a sonoridade thrash metal que deu fama ao grupo nos anos 80.
Hammett respondeu sobre o que aconteceu com a banda depois das traumáticas gravações de "St. Anger", sobre o fim da longa parceria com o produtor Bob Rock (e o início de uma com Rick Rubin) e seu papel apaziguador na formação. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

FOLHA - Agora que já se passaram cinco anos desde o lançamento de "St. Anger", como você vê esse álbum na discografia do Metallica?
KIRK HAMMETT - Acho que é o álbum que precisávamos fazer para chegar ao ponto em que estamos agora, para voltarmos a ser uma banda. Era uma situação em que estávamos nos destruindo. Fizemos o melhor que conseguimos naquelas circunstâncias. Agora estamos ótimos, inspirados. A grande diferença é que, durante o processo do "St. Anger", éramos três caras e o [produtor] Bob Rock tocando baixo. Não éramos o Metallica. Quando o Rob [o baixista Robert Trujillo] entrou na banda, depois da gravação do "St. Anger", levou um tempo para nos acostumarmos com a nova situação, acharmos nossa química e descobrirmos o papel dele na banda. Começamos a escrever as músicas do "Death Magnetic" e percebemos que ele era parte da família. Então, neste novo álbum, finalmente soamos como uma banda outra vez.

FOLHA - Na turnê do "St. Anger", muitas vezes vocês tocavam só duas músicas do disco. Depois que o lançaram, perceberam que era ruim?
KIRK HAMMETT - Não, eu nunca disse isso. Acho que ele é um grande disco, fantástico. Sei que tem muita gente que discorda de mim, mas acho que algumas músicas são demais. "Frantic" é tão boa quanto qualquer canção que já escrevemos.

FOLHA - Você pode descrever como é um dia no estúdio com Bob Rock e outro com Rick Rubin?
KIRK HAMMETT - Isso é praticamente a diferença entre a noite e o dia. Bob Rock é o tipo do cara que domina o estúdio. É o primeiro a chegar, o último a sair. Rick Rubin nos colocou no caminho para a essência da banda. Ele nos deixou por nossa conta. Isso resultou numa visão pura do Metallica, menos diluída por um membro de fora. Quando tínhamos discussões com Rubin, o interessante era o fato de ele não ser músico. Só conseguia interferir com coisas simples. Falava "isso funciona" ou "isso não funciona", usando apenas a intuição. Para mim, foi ótimo, quase uma revelação. Não houve muita intelectualização da música.

FOLHA - O disco novo tem um clima bem thrash metal dos anos 80. E isso também dá para sentir no disco dos irmãos Cavalera...
KIRK HAMMETT - Acabei de ver um show deles, por sinal.

FOLHA - Você acha que talvez possamos estar vivendo o começo de um revival dessa sonoridade?
KIRK HAMMETT - É totalmente possível. O thrash metal oitentista está influenciando muita gente. Tem bandas, como Lamb of God, Tivium e Shadows Fall, que emulam aquele som. E essa é uma geração novíssima de bandas. Dá para ver de duas formas: achar que essa onda nunca desapareceu ou que as pessoas estão fazendo um revival para retornar àquela essência. Essa essência sobre a qual tanto falo está fincada nos anos 80. É impossível negar.

FOLHA - Rick Rubin chegou a estimular a banda a soar mais vintage?
KIRK HAMMETT - Não usaria a palavra vintage porque isso indica algo velho e que sempre será velho. O que fizemos foi pegar alguns elementos do nosso som dos anos 80 e aplicá-los ao que estamos fazendo no presente. Isso nos permitiu criar algo moderno e novo. Não acho que esse álbum soe vintage. Isso foi a única coisa que não quisemos fazer: um disco vintage.

FOLHA - No documentário "Some Kind of Monster", você parece ser o mais centrado. Como consegue manter a sanidade no meio das brigas entre [o baterista] Lars [Ulrich] e [o vocalista] James [Hetfield]?
KIRK HAMMETT - Eu também brigo muito com eles. Algumas vezes, fico pensando por que ainda faço isso. É a dinâmica das nossas personalidades que nos coloca nessas situações, mesmo quando a química musical está legal. Sou um cara que consegue ver tudo de uma maneira bem clara. Estou sempre tentando fazer com que as coisas não cheguem longe demais.

FOLHA - Você pode falar da importância de Robert Trujillo, já que esse é o primeiro disco que ele grava com o Metallica?
KIRK HAMMETT - Robert é ótimo. Ele completou aquele espaço que estava faltando e que vínhamos procurando desde que Cliff Burton morreu. Jason Newsted ficou na banda por 14 anos, mas não acho que ele tenha desempenhado o papel que queríamos completamente. Já o Rob é um grande músico, um grande compositor, superpositivo e energético, com uma atitude que nos inspira.

FOLHA - Você tem lembranças das suas passagens pelo Brasil?
KIRK HAMMETT - Sempre adoro ir para o Brasil. As pessoas são calorosas, o país é lindo. Amo bossa nova, Tom Jobim, João Gilberto. E adoraria ir para o Brasil para surfar, pois isso nunca tive tempo de fazer. As mulheres são bonitas, a comida é maravilhosa. Estaremos em turnê pelos próximos dois anos e vou torcer para que a América do Sul esteja no calendário.

Banda volta ao passado em cacetadas

Bandas longevas que cunharam um som típico no início da carreira tendem a revisitar esse som. O R.E.M. faz isso com "Accelerate". O U2 reencontrou o passado com "All that You Can't Leave Behind". Agora é a vez do Metallica.
Verdade que a banda californiana relutou em voltar a soar como nos primórdios. Alguém com 30 anos provavelmente não se lembra do Metallica lançando um álbum do mais autêntico thrash metal. Quem foi jovem na década de 1990 conheceu o Metallica com a radiofônica "Enter Sandman" ou na MTV, já com o visual comportado, em que as vastas cabeleiras deram lugar a cortes mauricinhos.
Depois da terapia de "St. Anger", uma regressão soa até natural. "Death Magnectic" já abre com duas cacetadas que poderiam estar em "Master of Puppets", terceiro e mais cultuado trabalho do Metallica: "That Was Just Your Life" e "The End of the Line". Ambas são cheias de clichês do thrash metal que o Metallica inventou.
O desfecho de "All Nightmare Long" remete ao de "Metal Militia", uma das faixas mais poderosas do disco de estréia da banda. "Suicide & Redemption" é ainda mais empolgante, até por ser totalmente instrumental. James Hetfield funciona melhor tocando guitarra. Em "Unforgiven III", única balada do CD, ele parece cantar os mesmos versos das anteriores.
Outra decepção do repertório é o "The Day that Never Comes". Mas o final, com "My Apocalypse", certamente lavará as almas dos fãs. Mais thrash do que ela, só o logo original da banda, que volta em "Death Magnetic".

Banda tenta agradar com caixãozinho

Com "Death Magnetic", o Metallica tenta sepultar de vez a imagem de "inimiga da internet", criada após discussão sobre downloads pelo Napster. Colocou músicas em www.missionmetallica.com e inventou promoções para ingressos da nova turnê.
Também é possível encomendar o novo disco no formato de caixãozinho, embalagem que contém CD, DVD com ensaios, camiseta, bandeira, palheta, pôster e cartão de crédito.



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