A criação do Load

Originalmente publicado na revista MetalHead Número 18, Ano 3

O Metallica sempre foi um grupo que quebrou barreiras. A cada álbum eles surpreendiam a todos, críticos e fãs de música pesada. Jamais eles poderiam imaginar que chegariam ao topo. E com Load, esta colocação permanece inabalada. Aqui os quatro cavaleiros do metal falam um pouco sobre como foi à concepção de Load.

Load foi um disco difícil de realizar?

James: “Gravar 29 musicas é uma tarefa difícil. De todo o processo de composição tivemos muito material que vingou e permaneceu. Em outros álbuns nós gravamos o que tinha sido composto e pronto. Se tivéssemos o suficiente para tirar dez musicas, então dez músicas seriam gravadas. Mas dessa vez nós tínhamos malas cheias de fitas de cinco anos sem lançar um disco. Neste tempo tivemos muitas idéias e continuamos a compor. Num determinado momento pensamos: ‘está na hora de parar’. Tínhamos 29 grandes canções, e tínhamos que entrar em estúdio e gravá-las. Bem, a idéia era fazer um CD duplo com elas. Gravamos todas as bases de bateria, e isso levou muito tempo. Então ficamos sabendo que não íamos ter tanto tempo disponível, e no ritmo que estávamos, acabaríamos ficando em estúdio por mais de dois anos. Não era isso que queríamos fazer. As datas da turnê e todos os compromissos acabaram por ajudar a finalização do disco. Desta forma tivemos que escolher 14 músicas. Sabíamos que o máximo de tempo que um CD suporta é 80 minutos. Esse foi o tempo que a tecnologia nos permitiu usar sem provocar problemas em nenhum CD. Estas musicas combinaram bem e foram basicamente as 14 de melhor resultado.”

Já se passaram cinco anos desde o álbum preto. Por que um intervalo tão grande para o lançamento de Load?

Lars: “Nós ficamos quase três anos na estrada. Tínhamos um ano para clarear a mente e quase mais um para gravar. Obviamente não foi um tempo de inatividade. Esta turnê foi a mais longa que fiz e provavelmente a mais longa na qual alguém estúpido o suficiente se meteu. Mas tínhamos um disco que justificava esse esforço e fizemos o que precisava ser feito na hora certa. Tivemos a chance de tocar em muitos lugares que não sei se teremos chances de voltar. Vários paises abriram suas portas e voltamos a lugares como Grã Bretanha e Europa por três vezes. Foi um grande lance. Depois te tudo isso nós realmente precisávamos de algum tempo livre pela primeira vez em nossa carreira. Realmente precisávamos fugir do Metallica por um tempo. Depois então voltamos para o Metallica por um tempo. Eu e James escrevemos cerca de 30 músicas. Na verdade não fizemos apenas um álbum, gravamos na verdade dois e temos o resto destas gravações guardadas, esperando para serem usadas quem sabe, em um outro disco. São cinco anos e tivemos toneladas de trabalho que fez com que o tempo passasse muito rápido”.

Com cinco anos de intervalo entre uma gravação e outra, alguma música foi esquecida pela estrada?

James: “Depois de cinco anos você as vezes se espanta: ‘sou eu mesmo tocando aquele riff, tinha esquecido completamente, isso é bom!’ E você fica agradecido por existirem os gravadores. São muitas anotações nas fitas, umas poucas linhas e pedaços de letras que você rabiscou num papel ou guardanapo de hotel. Tenho um livro grosso mas se não estiver compondo eu sequer olho para ele. Eu simplesmente ia em frente, e talvez tenha esquecido de uma ou outra coisa anotada, o que não é tão mal porque algo fica na sua cabeça e é só recomeçar que você lembra.”

Quando vocês começaram a gravar Load?

Jason: “Final de abril de 95, em Solcolito, Califórnia. No studio The Record Plant. Ele fica muito perto, a uma hora no maximo, da casa de todos nós. Foi a primeira vez que gravamos tão perto de casa. Nós entramos com aquela idéia de 29 musicas, com a tarefa de fazer um CD duplo. Depois de levarmos seis meses nas bases da bateria, tivemos uma espécie de reunião de equipe e vimos que aquilo não ia funcionar porque tínhamos que ter tudo definido para sair em turnê e tudo mais. Não podíamos deixar chegar o verão sem antes de informar para um geração inteira de fãs que o Metallica estava vivo. Nós queríamos que tudo recomeçasse a rolar. Foi o que fizemos. Decidimos com quais músicas iríamos trabalhar. No dia primeiro de março mudamos toda a operação para New York, lá finalizamos os vocais e algumas coisas de guitarra e masterizamos.

Por que vocês decidiram voltar a trabalhar com o produtor Bob Rock?

Lars: “Se você me perguntasse isso no dia em que eu terminei o álbum preto, teria dito que nós nunca mais trabalharíamos com ele novamente, e ele responderia o mesmo. O álbum preto foi um disco difícil de fazer, muita pressão, muita briga, muita diferença de opiniões. O importante é que entre o álbum preto e Load desenvolvemos uma amizade grande com ele. Tivemos chances de sair e ficar mais tempo juntos longe do trabalho. Alguns de nós se tornaram realmente bem chegados de Bob. Acho que acabei virando um grande amigo de Bob nos últimos anos. Quando chegou a hora de sentar e pensar o que faríamos para o próximo álbum, foi automático. Mas não seria tão automático há quatro ou cinco anos atrás. Por isso ele está de volta. Dos seis álbuns que fizemos este com certeza foi o mais tranqüilo, o menos estressante de todos. Foi o primeiro disco que gravamos em casa, em São Francisco, e nos conscientizamos que teríamos que gravar em curto espaço de tempo. Hoje vejo Bob mais como um amigo em estúdio dando idéias e ajudando a realizar as nossas, não em típica relação artista/produtor. Quando nós conversamos sobre Metallica, não houve muita teoria porque somos muito instintivos. Definimos que queríamos nos sentir livres para soar mais banda, mais como tocamos ao vivo e conseguir que isso rolasse no disco. Estas foram as únicas recomendações dadas para o Bob e fomos adiante”.

Como o disco foi tomando forma no estúdio?

James: “Isso não nos preocupou muito. Foi como se o material que a gente tinha antes se configurasse sozinho no estúdio. ‘Ok este é um puta riff, vamos temperar com outros riffs em volta e armar a música desse jeito’. Nós simplesmente tínhamos um riff e misturávamos com outros transformando tudo numa coisa só, enquanto deixávamos que todas as outras coisas acontecessem em volta. Lars e eu assimilávamos o riff de Kirk ou de qualquer outro e começávamos improvisando em cima. E assim as coisas fluíram melhor ao invés de tentar e tentar encaixa peças diferentes em um mesmo quebra-cabeça. É como se a própria composição tomasse forma por si só e desenvolvesse seu próprio sentimento. Eu acho que é mais uma coisa de descobrir tocando junto do que qualquer outra”.

Tendo tanto sucesso com o álbum anterior vocês não pensaram em se deter na mesma fórmula de compor?

James: “Nós escrevemos por nós mesmo e pronto. E quando você escreve por si próprio e há cem por cento de honestidade na sua música, as pessoas podem sentir isso. Eles notam se você esta compondo músicas como se quisesse fazer outro álbum preto. Quem ficaria feliz com isso? Talvez uma pequena parcela do público. Mas se nós não estivermos satisfeitos isso acaba nos puxando para baixo”.

Jason: “Você simplesmente não consegue fazer isso. O Metallica nunca esteve nesse caminho. O Metallica conserva sua parte metal sempre. É sempre pesado por causa do ambiente onde é criado. Mesmo quando são apenas violões, lados B ou o que seja, é ainda pesado pelo que é. Não nos contentamos em simplesmente estar aqui. Temos que nos manter dando os grandes passos. É o que esperamos de nós mesmos e o que as pessoas esperam do Metallica. As pessoas perguntam para onde é dirigido o novo álbum e coisas desse tipo. A direção do Metallica é adiante.

Vocês já tiveram que encarar períodos de branco na criação para novos álbuns?

James: “Acho que isso acontece quando você força demais, tipo, ‘okay, são oito horas, vou sentar e escrever algumas letras’. Não funciona desse jeito e por mais clichê que pareça isso só acontece de vez em quando. Mas esses brancos são bons. É bom para não ter nada em sua cabeça por alguns minutos. Ai abre espaço para alguma coisa entrar e pinta uma idéia. Mas realmente tentar forçar não funciona”.

Load tem um sabor ao vivo. Foi uma intenção consciente da banda?

Jason: “Foi uma decisão consciente”.

James: “Foi nosso plano. Conseguir ficar mais solto e provavelmente o resultado soa mais vivo do que qualquer outra gravação de estúdio que fizemos. Obviamente não são takes ao vivo. Era exatamente o que queríamos e não foi muito produzido. Obviamente há texturas e coisas em que nos divertimos um pouco mais juntos. Mas nada produzido demais. Só para ser conservado melhor e um som mais verdadeiro. Esse foi o plano”.

Vocês demoraram em compor Load?

James: “Não foi um longo período de composição. Mas tínhamos uma boa fatia quanto entramos em estúdio e ainda continuamos escrevendo alguma coisa lá. Acho que umas seis vieram juntas depois disso. ‘Poor Twisted Me’, por exemplo, era apenas algo com que eu ainda estava brincando quando começamos a gravar. Ai Lars veio e disse ‘Hei! Vamos trabalhar nisso’. E a música aconteceu.

Falem um pouco sobre o primeiro single Until It Sleeps.

James: “No mínimo essa musica é muito especial para mim e estou certo que para Bob e outros três também. Eu e Lars não sentamos e fizemos essa musica de maneira habitual. Aconteceu que antes de gravarmos algumas bases de bateria, começamos a brincar com alguma coisa e aí Bob sussurrou para o técnico para apertar o botão e gravar. Acabamos conseguindo alguma coisa interessante no Tape e em dois ou três dias nós trabalhamos nisso. E dessa coisa meio embaralhada surgiu essa musica”.

Como vocês sentiram quando finalmente terminaram o disco?

James: “Tirando todo o inferno e divertimento pelos quais passamos com esse disco, a masterização rolou bastante tranqüila. Lars e eu estivemos lá todo o tempo e foi ótimo. Eu estava escrevendo umas letras quando a faixa oito estava sendo mixada. Os últimos minutos foram tipo ‘não faça isso’. Não podia ser tão fácil. Quando rola tão fácil alguma coisa está errada. Eu fiquei reclamando por meia hora. Eu só acreditei que estava pronto no vôo de volta. Peguei um DAT e escutei da cabeça aos pés e foi tipo ‘missão cumprida’.

Por que vocês escolheram Load para titulo do novo álbum?

Lars: “Nós realmente queríamos alguma coisa que fosse indefinida. Alguma coisa que não fosse, desculpe o trocadilho, um título carregado. Algo que ao mesmo tempo tivesse muito peso. Contribuímos com um conceito de gravação, com profundidade e conteúdo, abordando dogmas políticos e essas coisas. James sentiu que, como as letras ficaram mais pessoais, estava muito menos interessado em amarrar as letras das músicas umas nas outras, em amarrar as canções em um determinado assunto pertinente. Acho que só queríamos tentar achar um titulo que não significasse nada e ao mesmo tempo pudesse significar qualquer coisa. Nós pensamos em seis ou sete títulos diferentes para chegar num que pudesse abordar desde o mais estúpido ate o mais sério tema. Para saber o que significa isso tem que ouvir o disco”.

Como vocês se saem na rotina destes dias de estrada?

James: “Fora a vida que escolhemos. Você fica em casa por seis meses, relaxando. E depois está na estrada. Exatamente o oposto, completamente concentrado toda noite, deixando toda energia fluir de você. O mais difícil de uma turnê, provavelmente é se manter engrenando nela. Mas uma vez dentro, a grande roda está girando. Lotar todos os lugares não há melhor sensação realmente. Quando você está aceso e as pessoas podem ver e sentir isso. O álbum preto manteve-se na estrada por mais de dois anos. E há tantos lugares abertos para nós. Muitas cidades na costa do Pacifico, o bloco leste da Europa e ainda Grécia, Turquia e tantos outros. Nós queremos tocar em todo lugar, é só deixar a gente entrar.

Jason: “Sempre foi o que buscamos e continua a ser. Queremos tocar para o maximo de pessoas possível. Nós continuamos crescendo, as pessoas crescendo conosco. Essa é a idéia por trás de tudo isso.

A cada álbum o Metallica parece ficar maior e maior. O que basicamente mudou do começo até os dias de hoje?

Kirk: “Certamente rolava muito divertimento e grandes momentos. Nosso compromisso sempre foi com a nossa música e nada nunca nos deteve. Eu acho que esse espírito tem sido mantido. Se passaram dez, doze anos, mas eu não sei se a atitude mudou na banda. Tem mais relação com a banda do que com a mudança das coisas. Eu diria que não é uma questão de necessariamente ter mais divertimento agora do que antes. Isso porque nós sempre valorizamos cada situação pela qual passamos, fosse em que nível fosse. Nós sempre procuramos tirar o máximo de divertimento da música, de curtir as pessoas, os fãs nosso comportamento e coisas assim. Indo ontem para uma apresentação, dei todos os autógrafos que apareceram por quase uma hora, estive com cada garoto, apertei todas as mãos e nada me parece ser diferente do que era antes. Há mais da parte deles e isso provavelmente deve ser a única diferença”.

Lars: “A grande diferença é que nós provavelmente temos mais espaço para nós mesmos. Começamos exatamente com o mesmo tipo de atitude, somos nós e nossos fãs. Só que viajamos melhor e nossos apartamentos nos hotéis são mais legais. Há certamente uma tendência de romancear os dias passados quando nós estávamos começando e éramos músicos cheios de fome, que estavam somente interessados em enfiar sua música guela abaixo de todo mundo. Ainda somos assim. Somente as coisas a nossa volta é que mudaram um pouco. A diferença é que pela primeira vez em toda nossa carreira com o Metallica, nós pudemos estar em casa por pouquíssimo tempo, duas ou três semanas perto do Natal para curtir um pouco o fruto do nosso trabalho, ficar um pouco com nossos parentes e amigos, reencontrar a nós mesmos, recobrar a confiança, começar a se sentir melhor e por o pé na estrada para uma turnê de 22 meses diretos.”

O que vocês podem dizer da musica “Cure”?

Kirk: “Não é sobre o The Cure. Isso traz a tona novamente à velha questão das letras das canções. É sobre qualquer coisa que você queira interpretar. Mas é uma grande faixa.”

E sobre “The Outlaw Torn”?

James: “É provavelmente a faixa mais Metallica do álbum. Mais para o estilo antigo. A musica tem dez minutos. Mas para mim não parece, é meio cíclica."

Jason: “Faz lembrar realmente uma coisa meio “Ride the Lightning”. É meio épica, bem legal. E definitivamente uma das minhas favoritas. E são também os melhores vocais”.



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