Metallica: Um monstro do show business

2004

By Micki Mihich

Está concorrendo no Festival de Cinema de Sundance (promovido por Robert Redford) em categoria especial, um filme chamado "Some Kind Of Monster". Trata-se de um filme do Metallica, sobre o Metallica, e, talvez, para o Metallica. Há mais de uma década foi lançado um vídeo duplo intitulado "One Year And a Half In The Life of Metallica", que mostrava a banda durante todo o episódio envolvendo o famoso "black album", desde a composição das músicas até o final da turnê. O mais importante deste vídeo foi a explícita demonstração de "troca de liderança" na banda, com o Metallica deixando de ser a banda de Hetfield-Ulrich para ser a banda do produtor Bob Rock. No filme, Bob manda e desmanda nos músicos, chegando até mesmo a dizer a Kirk Hammett, numa das cenas: "Você não fez a sua lição de casa, Kirk", quando este apresentou um solo que "o patrão" não gostou.

"Some Kind Of Monster" possui a mesma proposta do antigo vídeo, mas muita coisa mudou: o filme é apresentado em película, portanto mais profissional, cobre dois anos de atividade do Metallica, tem 135 minutos de duração, a banda agora já é de Bob Rock (ele não está mais apenas "começando a tomar conta dela"), o som é outro, depois de ter sido ainda outro no passado, e, depois de 90 milhões de discos vendidos, agora eles são rockstars. Por isso mesmo o filme parece ter sido feito para fãs dos integrantes do Metallica, não para fãs das músicas do Metallica.

Trocando em miúdos, muitas das partes interessantes que havia no primeiro vídeo de mais de uma década atrás (eles compondo, gravando, filmando os clipes, saindo em turnê, etc), que interessam a todos que gostam de música, foram substituídas por brigas internas, sessões de psicologia, inimizades e intrigas. Ok, aquelas partes referentes à música estão todas lá, mas não nos esqueçamos que agora temos nas mãos uma banda diferente, em todos os sentidos.

Para exemplificar, há um "membro extra" na banda, um sujeito chamado Phil Towle, psicólogo especialista em terapias em grupo e de casais, que ganha 40 mil dólares por mês para ficar com eles e fazê-los "se darem bem". Por mais que pareça que eles se dão bem, eles não se dão (entra então em cena o psicólogo): James reclama que perdeu o primeiro aniversário do filho por causa da banda; Lars reclama que a banda vai ficar de molho seis meses porque James vai para um centro de reabilitação alcoólica; quando James volta Lars então reclama do pedido de James de ficar menos tempo com a banda e mais com a família; e também continua, claro, reclamando do Napster.

O único que não reclama é Kirk Hammett, talvez o motivo que o tenha mantido na banda. Mas o que dá mais raiva em ver Lars Ulrich reclamando é que também se percebe que não há motivos para ele reclamar: são mostradas sua nova propriedade nas montanhas e sua caríssima coleção de arte, por exemplo. Interessantes são os depoimentos dos ex-membros Dave Mustaine (do Megadeth, ainda fulo da vida com sua saída da banda há 21 anos) e Jason Newsted, que saiu por estar cansado de toda a "pantomima metálica", antes mesmo de ela ter chegado ao ponto em que chegou.

Em termos cinematográficos, os diretores Joe Berlinger e Bruce Sinofsky fazem um excelente trabalho com a oportunidade que tiveram nas mãos  o que deveria ser apenas a filmagem da criação de um disco tornou-se uma verdadeira viagem dentro de uma banda que há muito tempo perdeu seu caminho. Esperamos que eles descubram um psicólogo ou um centro de reabilitação que os devolvam aos velhos tempos. Intenção, ao menos, eles parecem ter.

Publicado originalmente na revista Dynamite, edição número 72.

 



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