89 entrevista Jason Newsted

89 A Revista Rock – Ano 1 Número 6 – Novembro de 98

Jason Newsted, o baixista do Metallica, tem fôlego de gato, memória de elefante e uma santa paciência. Depois de três horas de show, foi ele quem ficou dando autógrafos para uma fila interminável de fãs. Mesmo cansadão, fez questão de dar esta entrevista exclusiva. “Estive lá na Rádio 89 quando fui ao Brasil participar do show ‘Barulho Contra a Fome', com o Sepultura. A galera é gente fina”, disse pro segurança-gorilão que tentava dispensar nossa reportagem. Depois de uma hora de conversa regada a cervejas geladíssimas para compensar o calor, só temos uma coisa a dizer: gente fina é você, Jason!

89: Como foi tocar com o Sepultura no Brasil?
Jason: Foi demais. Quando o Sepultura estava fazendo esse novo disco, eles vieram ao estúdio que eu tenho em casa e gravamos uma música juntos. Daí eles estavam conversando sobre esse show contra a fome, em São Paulo, e me convidaram para ir.

Vocês já se conheciam?
Já, desde 1992. O James (Hetfield) tinha se queimado com os fogos de artifício de um dos shows e estávamos testando outros guitarristas para substituí-lo temporariamente. O Andréas fez o teste e acabamos ficando amigos. Desde então, a gente fez vários projetos juntos.

O que você acha do novo Sepultura?
Acho muito bom. Não posso dizer se prefiro essa formação ou a antiga, porque são duas coisas bem diferentes. O novo Sepultura é a continuação do antigo, é o passo seguinte. Eles estão forçando os limites em vez de fazer a mesma coisa. Só ouvi o disco algumas vezes, e preciso ouvir mais umas dez vezes para digerir tudo. Tem muitas coisas acontecendo em três, quatro minutos de música. O novo vocalista, Derrick (Green), está ótimo no disco, mas ao vivo precisa melhorar.

E o Soulfly, a banda de Max Cavalera?
Não somos tão amigos mas mesmo assim gosto muito do som.

Conte um pouco da sua carreira antes do Metallica, quando você tocava no Flotsam & Fetsam.
O Flotsam & Jetsam foi formado mais ou menos em outubro de 81. Estava procurando emprego como músico, vi um anúncio no jornal sobre uns caras que estavam procurando baixista e fui contratado. Em 85, conseguimos lançar nosso primeiro disco através de uma gravadora independente. Logo depois, Cliff Burton, o primeiro baixista do Metallica, morreu. Eu cuidava de toda a parte empresarial do Flotsam & Jetsam e por isso as mesmas pessoas com quem eu estava tratando tinham contato como Metallica. Essas pessoas sugeriram meu nome para James e Lars. Fiz uma audição para o Metallica em 86 e fui aprovado. O Flotsam & Jetsam continuou na ativa e já lançou uns cinco ou seis discos até agora.

Como foi substitui Cliff Burton?
Um sonho e um pesadeo ao mesmo tempo. O Sonho foi tocar com os caras que até então eram meus ídolos. O pesadelo foi ter de lidar com as expectativas e com as emoções das pessoas. Todo mundo me testava. Durante muito tempo, tive de ficar provando que era a pessoa certa para substituir Cliff. A atitude de muitos fãs era: “Você não é Cliff, então mostre pra gente que você merece estar aí”. Estava muito feliz, lógico, mas ao mesmo tempo tomei muita porrada, vinda muitas vezes de pessoas que eram importantes para mim. Mas isso foi há 12 anos. Hoje é totalmente diferente. A banda nunca se deu tão bem.

Por que isso?
Talvez por causa dos bebês. James foi pai pela primeira vez em junho e o bebê de Lars nasceu há poucas semanas. Os dois caras que começaram o Metallica, a alma e o coração da banda, agora são pais. Eles vêem as coisas de uma outra maneira, agora. Acho que é a tão falada maturidade. Eles têm mostrado muito mais respeito por todo mundo, vêem nas pessoas qualidades que não viam antes. O clima de turnê é muito melhor.

Nem sempre foi assim?
Ah, não! Hoje em dia, mesmo depois de tantos anos juntos, olhando pra cara do outro todo dia, a gente se encontra de manhã e se cumprimenta com um puta carinho. Houve épocas em que a gente olhava um pra cara do outro e sentia ódio, raiva, queria pular no pescoço, mandar praquele lugar.

Quando foi isso?
Não foi numa época específica, mas sim durante as turnês. Foram crises ao longo da carreira. Mas a pior de todas foi durante a turnê do Black Album. O disco estava vendendo feito água, uma loucura. Quando Enter Sandman e Nothing Else Matters começaram a tocar na rádio, pessoas que nunca tinham parado para ouvir uma música nossa resolveram que queriam ver nossos shows. Fizemos uns 300 shows para aquela turnê, um depois do outro. Foram 22 meses na estrada, longe de casa, só viajando e tocando. Ao mesmo tempo, estávamos abismados com toda a a grana que fazíamos. O Metallica não estourou da noite para o dia, foram dez anos de trabalho duro até chegar naquele ponto. Quando chegamos, algumas pessoas acabaram dando uma pirada, viraram estrelas. Começaram a ser escrotos. Não vou dar nomes. Talvez seja a natureza humana, não sei.

E como vocês fizeram para não deixar a banda acabar?
Nos ligamos a tempo de evitar uma separação. Sentamos, conversamos e percebemos que tínhamos de nos manter unidos. Sempre tivemos em mente que tínhamos de trabalhar juntos, os quatro. Ninguém podia vacilar, todo mundo tinha de mandar bem no que estava fazendo pra poder chegar onde queria. Quase nos esquecemos disso por algum tempo, mas acordamos antes de fazer besteira.

Que mudanças você trouxe para o som do Metallica?
Meu estilo é diferente do estilo do Cliff Burton. Toco de um jeito mais abrupto, mais energético. Cliff tinha um som mais amplo, mais cheio de efeitos. Minha pegada é diferente e me permite acompanhar melhor a guitarra de James, por isso o som do Metallica ficou mais justo, mais compacto, mais percussivo. Acho que eu trouxe mais energia para a banda, mais “Ahhhhh!!!” (berra). Cliff era mais sossegadão, gostava de fumar um baseado para relaxar antes de tocar e eu gosto de tomar café para ficar ligado. Cheguei cheio de garra e sangue novo, vontade de aprender com a banda, decidido a não cometer erros.

E a tal história de que o heavy metal morreu?
(suspira) Você viu o show hoje? Você viu as 20 mil pessoas pirando por três horas no meio da poeira? Foi assim ontem e tem sido assim todos os dias desde que a gente começou a turnê. O heavy metal está longe pra caralho de morrer! Neste momento ele não é tão popular no rádio, não tem recebido tanta atenção quanto costumava receber. Isso não quer dizer que não esteja vivo, pulsando, borbulhando. Não interessa o quanto a onda eletrônica esteja na moda. Nada, nunca, vai substituir quatro caras, sem grandes recursos – só os instrumentos e os microfones -, usando as próprias mãos para fazer barulhos, cometer erros, criar música. Isso nunca irá sumir.

E bandas como Slayer, que fazem o mesmo som por mais de 15 anos? Você acha que eles pararam no tempo ou é uma questão de fidelidade ao estilo?
Eles são os melhores no que fazem. Os shows deles são maravilhosamente intensos. Mas eles se encurralaram num canto e não conseguem – ou não querem – sair de lá. Criaram esse estilo e nunca arriscaram nada diferente. Se 400 mil pessoas compraram o último álbum, 400 mil comprarão o próximo. Se a música deles não se desenvolve, o público também não. Para mim, quem fica parado, na verdade, está andando para trás.

Os álbuns Load e Reload trouxeram um novo Metallica. Com isso, vocês ganharam ou perderam fãs?
Vamos sempre ganhar mais do que perder. Não nos encurralamos num canto. Arriscamos sempre, desde o começo de nossa carreira. Isso nos permite fazer o que quisermos, quando quisermos. As pessoas não sabem mais o que esperar da gente, mas ainda assim vão comprar o disco e virão aos nossos shows. As pessoas vão aceitar o que fizermos por causa do nosso crescimento como músicos e como banda. Aprendemos cada vez mais e vamos fazer um disco melhor que o outro. Para a moçada que só acha legal nossos primeiros discos, cheios de urros, é só comprar o disco de um das centenas de bandas de heavy metal que existem por aí e que ainda fazem esse som. Mas não desdenhem de quem ensinou essas bandas, de quem influenciou o som delas, de quem influenciou o som delas. Qual dessas bandas teria a cara-de-pau de dizer que não tem nenhuma influência das guitarras de James e Kirk? Atirar pedras naqueles que criaram e ajudaram a inventar esse estilo não é certo, nem muito esperto. É como o cachorro que morde o próprio rabo.

O que você acha desses dois últimos discos do Metallica?
Acho ótimos. Muita música, muito desenvolvimento. Tenho orgulho de termos feito o que queríamos fazer, sem preocupação com o que as pessoas iriam pensar. Se você começa a se preocupar com a opinião dos outros, se começa a querer agradar todo mundo, você está fudido.

O visual da banda mudou muito. Foi uma coisa progressiva, casual, ou algo combinado e planejado?
Você está perguntando se nós fomos ao barbeiro juntos e cortamos o cabelo ao mesmo tempo? Não! Cortei meu cabelo em janeiro de 92, ou seja, estava de cabelo curto quatro anos antes do resto da banda também passar a tesoura. Foi uma decisão de cada um, mas todo mundo pôs a culpa em mim!

Garage Days, um disco só de covers lançado em 87, foi seu primeiro trabalho com o Metallica. Quais das covers você escolheu?
Foi uma decisão coletiva, democrática. Lars tem uma enorme coleção de new wave e heavy metal inglês. Ele trouxe uma porrada de músicas que achava legais e todo mundo decidiu junto. A gente ta fazendo a mesma coisa agora, pro relançamento do Garage Days, que vai ter todas as covers da primeira versão, mais sete novas, mais vários lados B de singles do Metallica. O Garage Days original estava fora de catálogo há alguns anos, virou item de colecionador. Nós queríamos dar um grande grito para nossos heróis, nossas influências, as bandas que nos fizeram ter vontade de aprender a tocar. Daí resolvemos fazer tudo de uma vez: dar um presente para os fãs e homenagear nossos ídolos. Fora a diversão de entrar no estúdio e gravar sons que não são nossos, que já estão prontos. É muito legal. É a coisa mais legal que se pode fazer no estúdio. Alguém já decidiu por você o que você deve tocar.

Vocês já decidiram quais serão essas covers inéditas?
Nada definitivo. Nós sabemos quais a gente quer fazer, mas, daí, até ficar legal, é outra história. Temos que ver ainda como é que sai o som para depois decidir.

Pela primeira vez, o Metallica tem tocado músicas acústicas num turnê. Por que isso agora?
Não pergunte “por que vocês...”, pergunte “por que eles...”. Não tenho nada a ver com isso. Os outros três é que quiseram fazer e eu sempre fui contra, mas fui vencido pela maioria. Não acho que seja o caso de colocar três músicas acústicas no nosso show. Uma, ainda vá, mas três? Não tem a ver com o Metallica. Não acho que o público goste. Não somos muito bons com instrumentos acústicos. Temos 20 anos de instrumentos elétricos e um ano de instrumentos acústicos. Isso fica óbvio na primeira nota.

Como você descreveria, em uma palavra, um show do Metallica?
Unidade.

Como vocês escolhem o setlist?
Quem escolhe é o Lars. Cada um tem uma determinada função na banda e a dele é escolher as músicas que iremos tocar em cada show. Mas tentamos misturar sons de todos os discos. Pensamos num cara que vai ver um show do Metallica para conhecer o som da banda e preparamos um mistura meio que balanceada. Nem só singles, nem só músicas obscuras. Nem só sons antigos, nem só o último álbum.

Qual a pior coisa na vida de um artista?
A falta de tempo para você mesmo e a falta de privacidade.

Por que vocês decidiram convidar Marianne Faithfull para colaborar com os vocais de The Memory Remains?
James fez a letra da música, que fala de uma pessoa que já esteve no centro das atenções por um breve momento, que teve um sucesso muito grande mas também muito rápido e que não conseguiu enxergar quando esse sucesso acabou. Nós estávamos tentando encontrar uma voz que pudesse contar essa história, pudesse passar essa emoção sem dizer uma palavra. Uma voz que mostrasse um passado de baladas, drogas e desilusão. Era para ser mais um latido do que um canto, nada muito bonitinho. Daí, nos reunimos e começamos a pensar em quem poderia fazer isso. Alamos em Annie Lennox, Chrissie Hynde em por último, surgiu o nome Marianne Faithfull. Escutamos uma fita dela e em um minuto já sabíamos que era ela. Felizmente, ela topou. Então fomos para o estúdio, fumamos uns baseados, tomamos um vinho e ela gravou os vocais, com a voz bem fudida. Era exatamente o que a gente queria.

Agora quase todos da banda estão casados. Como ficou a relação de vocês com as groupies?
Estou resistindo bravamente ao casamento. Até agora, consegui me safar e continuo me divertindo como sempre. Mas os outros integrantes não estão mais nessa, as prioridades mudaram. Confesso que prefiro as coisas assim. É melhor para trabalhar, para fazer turnê, para se programar, para gravar. Está todo mundo mais responsável. Sempre trabalhamos sério, mas hoje em dia conversamos mais uns com os outros. Isso é ótimo.

Dá pra definir a carreira do Metallica em uma frase?
Não consigo pensar numa frase, mas sim palavras: determinação, trabalho duro, boa música, fãs leais.

A turnê de And Justice For All acabou no Brasil. O que você se lembra desses shows?
Não lembro de muita coisa (risos). Nós estávamos caindo na balada forte naquela época, chutando o pau da barraca, tomando todas. Agora estamos mais sossegados...

Planos para voltar ao Brasil?
Ano que vem, em junho ou julho. Daí vou aprender “mais um pouquinho” (fala em português) de português (risos).

 



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