Metallica: Reconquistando velhos fãs

Revista Roadie Crew – Ano 2 Número 15 – Maio/Junho de 1999

O Metallica continua sendo a mesma banda de Heavy/Thrash Metal que “explodiu” de vez no início dos anos 90. É certo que lançou dois discos que causaram muita polêmica ( Load e Reload ), mas deram a volta por cima com o álbum só de covers de grupos dos anos 60, 70 e 80 – Garage Inc. – lançado no ano passado e mostraram em maio no show ao lado do Sepultura que a banda continua em excelente forma. O set-list contou com várias músicas antigas e em palco continuam tendo uma das melhores performances. Par desespero dos fãs mais radicais, o Metallica mostrou que um grupo não pode ficar parado em seu tempo. Em abril, o guitarrista e vocalista James Hetfield, o guitarrista Kirk Hammett, o baterista Lars Ulrich e o baixista Jason Newsted fizeram duas apresentações em São Francisco ao lado da orquestra sinfônica daquela cidade. O show, que teve duas canções inéditas alem dos grandes sucessos da banda em versão clássica, estará disponível em CD e vídeo. O lançamento dos dois produtos será em novembro. A Roadie Crew aproveitou a passagem da banda pelo Brasil para um rápido bate-papo com Kirk Hammett, Jason Newsted e Lars Ulrich. O trio, que faz parte da maior banda de Heavy Metal da atualidade, falou sobre a gravação de Garage Inc., o show ao lado do Sepultura em São Paulo, a participação da Orquestra Sinfônica de São Francisco e o novo trabalho que será lançado em novembro.

Roadie Crew: Como foi tocar com a Orquestra Sinfônica de São Francisco?
Kirk Hammett : Maravilhoso. Foi uma das experiências mais impressionantes de minha vida. Não sabíamos como iria ser este show, se iria funcionar, mas tudo ocorreu maravilhosamente e o resultado ultrapassou nossas expectativas.
Lars Ulrich: Foi demais poder tocar 18 músicas do Metallica de uma maneira diferente, usando violões celos, violinos e tantos outros instrumentos. Outro ponto fundamental foi a direção de Michael Kamen que conduziu a todos de uma maneira espetacular.

Roadie Crew: Você tocaram duas músicas novas lá. Fale sobre elas.
Kirk: Nós as compusemos especialmente para a apresentação com a orquestra. São duas realmente: No Leaf Clover e Minus Human . Elas vão estar no disco que vamos lançar em novembro com a gravação do concerto de São Francisco.
Lars: Nós tentamos criar essas duas músicas novas sem pensar que iríamos usá-las com a orquestra, pois queremos tocar essas novas composições em apresentações normais também. Mesmo assim, uma delas caminhou para o estilo sinfônico e a outra apenas ficou uma música heavy mesmo.

Roadie Crew: Vocês sempre tiveram um público excepcional no Brasil. Como é tocar em um país onde o público é totalmente diferente do europeu e do norte-americano?
Kirk: É um público maravilhoso. Sempre nos proporcionam horas agradáveis em São Paulo. Sempre nos deram apoio, desde o início da carreira, desde as primeiras turnês. Passar por São Paulo é fundamental.
Lars: O público é bastante emocional e entusiasmado em toda América do Sul. É legal saber e ver que as pessoas se interessam no que você faz. Gosto muito da recepção que temos em toda América Latina, pois as pessoas vibram muito.

Roadie Crew: Vocês e o Sepultura são consideradas duas das maiores bandas de Heavy Metal do mundo. Como foi tocar ao lado da banda brasileira pela primeira vez?
Kirk: O Sepultura hoje é um das maiores – senão a maior – banda de metal do mundo. Eles fazem um som totalmente diferente das outras bandas do gênero. O Andréas, que quase tocou com a gente em uma turnê quando o James sofreu um acidente e teve queimaduras seríssimas, é um excelente guitarrista. Ele leva o som do Sepultura como quer. Foi fantástico dividir o palco com eles. Ainda faremos mais dois shows juntos com eles neste ano: na Alemanha e na Inglaterra. Amo o Sepultura. Só ouvi uma música do novo disco com o Derrick Green e achei legal. É difícil para alguém tomar o lugar de outro em uma banda. Sei disso porque eu entrei no lugar de Dave Mustaine.
Lars: Já tocamos com tantas bandas, antes ou depois, que às vezes nem sei quem está no palco, mas com certeza absoluta o Sepultura é a banda do Brasil com maior renome mundial. Esse encontro das duas bandas juntas já estava em pauta há muito tempo, mas a hora certa foi essa.

Roadie Crew: Quando sai o novo disco de estúdio do Metallica?
Kirk: Ainda temos alguns shows este ano. Deveremos parar somente em outubro. Aí começaremos a pensar em um novo trabalho. Só deverá ser lançado no segundo semestre do ano que vem. Ainda é muito cedo para falar como será o novo álbum. Os últimos dois discos do Metallica, Load e Reload , mostraram uma mudança tanto visual quanto musical do Metallica, mas alguns fãs mais antigos da banda não aceitaram esta proposta mais pop do conjunto.
Lars: Neste momento estamos concentrados apenas na tour. Mas, temos tudo planejado, todos os passos. Sei que irei começar a pensar num novo trabalho somente no dia primeiro de outubro, pois tudo que fazemos são coisas pré-estabeleceidas, práticas e quando paramos para criar, as coisas tem que ser espontâneas, por isso temos nossa agenda totalmente demarcada para o que vamos fazer.

(N.R.: Nesse momento o baixista Jason Newsted senta-se à mesa e Kirk Hammett deixa a entrevista para poder atender a outros jornalistas).

Roadie Crew: Jason, como você analisa o Metallica em Load e Reload ?
Jason Newsted: Gosto muito destes dois discos. Apesar de em Load termos usado instrumentos como jurdy-gurdy e violinos, o álbum continua sendo pesado. Reload é mais Heavy Metal ainda. O Metallica nunca mudará seu estilo. Se hoje há garotos tocando guitarras pesadas e rápidas, com certeza temos nossa parcela de responsabilidade por isso. O que acontece é que fomos amadurecendo, tivemos mais tempo de estúdio, melhoramos musicalmente, passamos a ouvir outros estilos. Tudo isso acabou influenciando nossa forma de trabalhar.

Roadie Crew: Mas por que, então, alguns fãs não aceitaram esta “nova forma de trabalhar” de vocês?
Jason: Não temos de provar nada a ninguém e continuaremos fazendo aquilo que estivermos com intenção de fazer no momento. Quando o Metallica lançou o primeiro álbum, Kill'em All , eles criaram o chamado Thrash Metal. O “álbum negro”, de 1991, foi uma mudança em nosso som. Load e Reload também já seguem outro estilo. Mas tudo dentro do rock pesado. Não é uma crítica, mas o Metallica não é uma banda tipo AC/DC ou Motörhead que seguem a mesma linha durante toda a carreira. Você disse que perdemos alguns fãs. Isso é verdade. Inclusive em um show nos Estados Unidos um garoto veio me pedir um autógrafo e tentou cuspir na minha cara. Mas, em compensação, ganhamos milhares de fãs em todo o mundo com estes dois trabalhos.
Lars: A gente não pode pensar só no que os fãs querem, pois senão teremos que compor de uma maneira diferente, uma maneira que não seria a partir de nossos sentimentos. De repente no próximo trabalho talvez possamos gravar o álbum mais pesado do MEtallica, o mais Heavy de todos e isso só acontecerá se estivermos a fim de fazer isso não porque alguns fãs não aceitam as mudanças na banda.

Roadie Crew: Por que lançar um disco só de covers se vocês já haviam feito isso anteriormente?
Jason: Começamos a pensar neste CD um dia depois que a nossa última turnê acabou. Algumas destas canções já havíamos lançado em singles ou no Garage Days . Mas muitos fãs não tiveram como comprá-los. Por isso, resolvemos incluir essas covers em um CD duplo. Mesmo assim, ficaram umas 20 músicas de fora que pretendemos lançar em um projeto parecido com esse daqui a uns cinco anos. Antes dos ensaios a gente tocava essas músicas. Também é uma homenagem a nossos heróis, a nosso ídolos. Queremos mostrar a nossos fãs quem o Metallica admira. Cada canção foi escolhida em conjunto. Só não abri mão de Sabbra Cadabra , do Black Sabbath.
Lars: Fizemos uma seleção de músicas que iriam ser incluídas todos juntos, mas, no fundo cada um tinha a sua preferida. Acho que o resultado final foi bem satisfatório.

Roadie Crew: No disco, só há bandas dos anos 60, 70 e 80. Por que nenhuma dessa década?
Jason: Escolhemos apenas bandas da década de 70 e 80 porque nos influenciaram. São nossos professores. Hoje, não há nenhuma banda superior ao Metallica no estilo que seguimos. Por isso não fizemos uma homenagem às bandas desta década. Mais do que uma homenagem, este trabalho ajudou alguns conjuntos financeiramente. Fiquei sabendo que no Brasil tem muita gente que conhece o Misfits por causa da nossa versão de Last Caress . É estranho, pois somos fãs deles e eles estão atraindo público graças a nossa versão em uma canção deles mesmos.

Roadie Crew: O cenário norte-americano passou por mudanças bruscas nestes últimos tempos. Nos anos 80, banda de Hard Rock como Ratt e Mötley Crüe estavam no topo e o Metallica começou sua escalada ao topo também nesta época. Mas, atualmente, as bandas mais alternativas vingam. Isto não afeta o trabalho do Metallica de alguma forma?
Lars: As coisas mudam, mas não fico pensando mais no que os outros estão fazendo e sim no que nós estamos fazendo! Há uns dez anos ficava me preocupando em escutar e conhecer o trabalho de outras bandas e ver como estavam soando, qual o tipo de equipamento que usavam, mas, hoje em dia, apesar de conhecer o som do Korn e outras bandas deste estilo, não me interesso tanto e não vou a fundo (N.R.: faz uma cara de que não gosta muito destas bandas). Por isso, estou escutando bandas mais antigas e redescobrindo o trabalho delas. Por exemplo, outro dia estava ouvindo o álbum Who Do We Think We Are? Do Deep Purple e percebi coisas neste álbum que nunca havia escutado antes e isto é uma coisa que nem passava pela minha cabeça, ou seja, redescobrir sons que já conhecia.

Roadie Crew: Então, Lars, você pode citar alguns álbuns que marcaram sua vida?
Lars: Do Metallica?!

Roadie Crew: (risos) Não, de outras bandas.
Lars: (demora um pouco). Primeiro AC/DC, pode ser o Let There Be Rock . Quase tudo do Deep Purple, do Guns N' Roses o Apettite For Destruction , Miles Davis e alguma coisa de Blues também, mas não posso precisar o álbum favorito.

Roadie Crew: Lars, já que você falou em redescobrir sons, esta foi a causa da mudança de seu set de bateria? Você redescobriu a simplicidade, não?
Lars: O set está mais simples porque cansei de bateria gigantes. Antes, pensávamos “quanto maior melhor”, mas agora sei que isto é desnecessário e estou tocando da mesma forma com este kit menor.



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